Os estudos provam isso. Mesmo com um grande investimento nos aeroportos de Pato Branco e Francisco Beltrão, ambos só operariam visualmente, mas isso não desperta muito interesse das empresas aéreas.

A primeira versão que correu na imprensa sobre o encontro de sexta-feira, 6, em Curitiba, para tratar do aeroporto regional em Renascença, era de que as lideranças do Sudoeste estavam unidas em torno do projeto. Mas bastou uma entrevista do prefeito de Pato Branco, Augustinho Zucchi (PDT), demonstrando que não apoia a ideia, para reacender a polêmica. Segundo ele, com um recurso muito inferior do que construir um novo aeroporto, é possível resolver o problema da região bem mais rápido do que esperar mais de 10 anos para o sonho de uma nova área. Tanto a administração municipal de Pato Branco quanto a de Francisco Beltrão tem projetos encaminhados na Secretaria de Aviação Civil para reformar seus respectivos aeroportos. O deputado estadual Wilmar Reichembach (PSC) abraçou o projeto e vem acompanhando o trâmite nos governos Estadual e Federal.
De acordo com ele, o aeroporto do Sudoeste será incluso em edital que vai definir uma empresa para detalhamento do estudo para posterior licenciamento ambiental. “Então está dando passos importantes esse projeto do Sudoeste que nasceu ainda em 2007, através da Amsop, e que graças ao plano nacional de interiorização da aviação pode se encaixar onde tem recursos específicos. E a condição de darmos sequência a esse projeto é que de médio prazo poderá ser implantado no Sudoeste, superando um gargalo muito grande que existe para o desenvolvimento e dar uma solução definitiva para esse assunto que todos nós sabemos que é de extrema importância para o desenvolvimento de uma região”, disse Reichembach.
Cada um por si
A verdade é que os municípios de Francisco Beltrão e Pato Branco estão protagonizando uma corrida para ver quem viabiliza primeiro uma linha aérea. Mas ambos os projetos dependem de grandes investimentos para modernização dos aeroportos, dinheiro este que não está garantido no orçamento do Governo Federal. Ademais, a ideia não é unanimidade entre os que entendem do assunto. Além de demandar grande investimento, os dois aeroportos operariam com limitações em virtude das condições climáticas.
A reportagem entrou em contato com a Azul Linhas Aéreas, uma das empresas cotadas para operar no Sudoeste, a qual respondeu que “continua estudando possibilidades de ampliação de sua malha aérea no Paraná, mas no momento não há nenhuma novidade sobre operações em Pato Branco ou em outras das cidades da região”.
Condições desfavoráveis
O consultor para modal aéreo Claudio Louzada, 59, ex-comandante da Rio Sul e Varig, explicou, em matéria veiculada pelo JdeB no ano passado, que pistas molhadas, com vento forte lateral e curtas não atendem o nível de segurança desejável pelos empresários de aviação, “porque uma aeronave de 70 lugares necessita de 1.367 metros para decolar com pista seca e com uma temperatura ambiente de 15ºC, conforme o manual do fabricante. No Brasil a temperatura média é de 26ºC. Consideramos agora 1.500m menos 1.367m, restam apenas 133 metros de pista para todas as eventualidades. Estando a pista molhada e com temperaturas acima de 26°C, 1.500m torna-se crítico”.
Estudo
O Estudo de Viabilidade Técnica (EVT) do aeroporto de Francisco Beltrão foi elaborado pelo Consórcio IQS Engenharia e PJJ Malucelli Arquitetura. Entre os cenários possíveis, o escolhido indica classificação 3C VFR (visual) com operação de uma aeronave ATR 72, com peso máximo de decolagem de 85%. O orçamento inicial é de R$ 70,7 milhões, sendo R$ 68,3 milhões em obras, prevendo ainda a desapropriação de 54.888 m², um terminal com 1.210 m² e novo pátio (9.048 m²) com quatro posições, com tempo de obra de 12 meses. Existe ainda a possibilidade, para diminuir custos, de reduzir para duas posições ATR 72 (com operação pushback – procedimento pelo qual um avião é rebocado desde a porta de embarque até a taxiway), mantendo o pátio atual para aviação geral.
Em Pato Branco, a classificação também será de 3C VFR (visual), com peso máximo de decolagem em 80%, orçamento aproximado de R$ 56,03 milhões e R$ 50,27 milhões em obras. A área estimada de desapropriação é de 177.291 m². O novo pátio (15.412 m²) prevê seis posições. Estão previstas no estudo seis demolições de edificações particulares, de três hangares e de pavimento flexível (1.231 m²).
Por que é melhor o aeroporto regional?
Uma pesquisa de Origem/ Destino 2015 sobre a demanda da região Sudoeste demonstra os motivos de viagem aérea: 39,1% trabalho, 23,8% visita a amigos, 18,5% lazer, 11% evento social, 4% saúde, 1,4% estudo e 2,2% outros. A estimativa de demanda futura para a região Sudoeste em 2035 é de 315.865 passageiros por ano. Um aeroporto regional novo pode ser construído com investimento médio que varia de R$ 69,9 milhões a R$ 100 milhões – como já existe em projeto nos aeroportos de Caxias do Sul, Novo Sobral e Novo Vale do Aço (Volta Redonda) – tendo como vantagem infraestrutura expansível, operação por instrumentos (com interesse das companhias aéreas) e relação custo benefício favorável a médio e longo prazo.
A Secretaria de Aviação Civil (SAC) avaliou a proposta da Amsop e, junto com o Governo do Estado e associações, definiu que a alternativa de investimento que melhor atende a região, prevendo expansões e custos benefício favorável, é a construção de novo aeroporto.
Há edital de prospecção e projetos em fase de aprovação na SAC, lote com 10 municípios, havendo possibilidade de inclusão do novo aeroporto regional a partir do estudo já apresentado, de forma a levantar elementos complementares importantes para escolha do novo sítio.
Zucchi diz que aeroporto regional do Sudoeste tem que ser em Pato Branco
JdeB – O prefeito de Pato Branco, Augustinho Zucchi (PDT), disse em entrevista para a Rádio Celinauta que o aeroporto regional do Sudoeste deve ser em Pato Branco.
“Um novo aeroporto regional demorará 20 anos; pode até ser feito, mas até lá, quantas empresas irão pra Chapecó [SC], pra Cascavel? Não é Francisco Beltrão. É o Sudoeste que irá perder. Então, isso, da forma que eu coloquei aqui, coloquei lá [na reunião sobre o aeroporto regional, em Curitiba]. Disse que tem que acabar com essa mesquinharia, senão a região irá perder cada vez mais e eu não abro mão de fazer um investimento para nós termos uma linha aérea nesse espaço de tempo. E vamos fazer um investimento. Se não for com o Estado, com o Governo Federal, vamos reunir os empresários e a Prefeitura e vamos fazer um investimento pra que a gente possa ter uma linha aérea, e que o Estado consiga um desconto no combustível do avião pra que a gente possa ter essa condição.”
Na sexta-feira passada, estiveram em reunião em Curitiba, além de Zucchi, os prefeitos Cantelmo Neto (PMDB de Beltrão), Lessir Bortoli (PSC de Renascença) e Luiz Bandeira (PP de Marmeleiro, também presidente da Amsop), os deputados federais Toninho Wandscheer (PROS) e Leandre Dal Ponte (PV de Chopinzinho), os deputados estaduais Wilmar Reichembach (PSC de Beltrão) e Guto Silva (PSD de Pato Branco), o presidente da Fiep, Edson Campagnollo, e o secretário estadual José Pepe Richa (Infraestrutura e Logística).
Uma primeira versão oficial que saiu desta reunião foi a de que haveria uma unanimidade em defesa de um novo aeroporto regional – tudo indicando para o município de Renascença, conforme projeto bancado pela Amsop em 2007.
Zucchi, no entanto, deu outra versão nessa entrevista, insistindo que o aeroporto da sua cidade poderia ser regional. “Nós nos adaptamos aqui para investir em nosso aeroporto, e Francisco Beltrão fez uma reunião com seus empresários, tocou seu projeto. Quando chegou em Brasília, se verificou que Pato Branco tinha mais possibilidades, até porque cancelamos nossos loteamentos, porque temos uma pista de aproximação melhor e porque a Prefeitura tem uma condição melhor e a parte empresarial também tem uma condição melhor”, disse Zucchi.
E mais: “Nós temos cinquenta e poucas aeronaves aqui, o número de pousos e voos é maior que Francisco Beltrão”, denunciando em seguida: “Na surdina, houve uma reunião em Brasília, onde o presidente da Amsop e o prefeito de Francisco Beltrão participaram, que era então o ministro Eliseu Padilha que privilegiou a decisão de não investir em nenhum aeroporto aqui no Sudoeste e investir em um aeroporto regional e queria essa concordância de Pato Branco. Eu disse: não haverá concordância de Pato Branco, porque isso é um desrespeito com a região, não só com Pato Branco, com a região!”.
Amsop diz que insiste em um novo aeroporto regional
Entrevistado pela Rádio Onda Sul, de Francisco Beltrão, o prefeito de Marmeleiro, Luiz Bandeira, presidente da Amsop, insistiu que a luta pelo aeroporto regional continua. “Tivemos avanços na reunião; algumas discussões a nível de Pato Branco e Beltrão, mas nada impede que o aeroporto regional dê essa continuidade e o projeto está andando. Eu acredito que agora a vontade de todos é que o aeroporto aconteça, e acho que sem dúvidas nós demos o primeiro e o segundo passo e, daqui para frente, se tivermos apoio, não haverá problema nenhum e o aeroporto irá acontecer; é lógico que é uma obra que não acontece de um dia para o outro”, afirmou, contrariamente à fala do prefeito Zucchi.
“Teve a reunião e ele [Zucchi] achou que o projeto era pra barrar Pato Branco, foi um mal-entendido da parte dele”, avaliou Luiz.




