HISTÓRIAS MARCANTES

Augusto lembra do sequestro que vivenciou quando caminhoneiro


Em 1983, ele chegou a ficar mais de 12 horas em cativeiro, algemado, após um assalto próximo de Guaíra.


Augusto com um dos caminhões que trabalhou em seus quase 50 anos de profissão como motorista.

A Serra do Cadeado fica no Centro-Norte do Paraná, entre as cidades de Mauá da Serra e Ortigueira, na BR-376. Em 1983, o motorista beltronense Augusto Zanette estava passando por esse local, seu caminhão estava carregado de Cloreto de Potássio, em serviço prestado para a Granja Martini, do empresário Chico Martini. Ele estava levando sua carga para Sorriso (MT) e parou em um posto de combustível perto para dormir. Por volta de uma hora da madrugada, bateram na cabine de seu caminhão.

Se passando por policial, grupo armado rende motorista

– O que você quer? – disse Augusto, assustado, ainda meio sonolento.
– Eu sou da polícia, preciso verificar a carga, o delegado pediu pra eu virar a noite fazendo isso – respondeu o homem do lado de fora do caminhão.
Augusto, então, abriu a porta do caminhão e um grupo de homens armados invadiram a cabine. “Eu ainda estava de cueca, tava dormindo. Quando me abaixei pra pegar a roupa, me deram uma coronhada na cabeça. Me colocaram as algemas e falaram pra eu ficar bem quietinho. Passaram uma fita nos meus olhos e eu não vi mais nada. Só consegui ver que era um Passat o carro que eles usaram pra me levar pro meio do mato”, conta o motorista, que neste momento ficou com medo de morrer. “Eu não sabia pra onde eles estavam me levando, só voltei a enxergar quando já estava no meio do mato. Fiquei algemado por mais de 12 horas, só de cueca. Passei frio de madrugada. Um dos homens ficou o tempo todo comigo, me vigiando. No caminho ao cativeiro, eu me raspei nas árvores, esfolei os pés, estava descalço. Aí eu disse pra eles que, se fossem me matar, que deixassem meu corpo perto da estrada, pra que alguém pudesse encontrar e levar meu cadáver pra minha família velar. Eles disseram, então, que eram ladrões gente boa, que eu não ia morrer, mas que eu tinha que colaborar”, recorda-se, emocionado, Augusto Zanette, que hoje está aposentado e mora no bairro Luther King, em Francisco Beltrão.

Liberdade e resgate

Por volta de uma hora da tarde, os sequestradores o soltaram. “Eu não tinha força pra mais nada, enrijeceu os ossos por causa do frio, não tinha força nem pra gritar. Quando me soltaram, eu corri pra estrada e encontrei umas pessoas em um Fusquinha, estavam olhando a soja, pedi ajuda, me levaram na polícia, na delegacia em Marilândia do Sul, até me emprestaram uma toalha e um sabonete pra eu tomar banho, porque eu não tinha nada. Conversei com o delegado, eles ligaram pro Martini e eles chegaram lá já era 11 horas da noite”, diz Zanette. No dia seguinte, Chico Martini e Augusto foram comprar roupas e tentar encontrar o caminhão. “Fomos até Guaíra atrás do caminhão, pedindo informações nos postos de combustível, mas não encontramos. Na segunda-feira, os ladrões ligaram na firma e pediram um valor pro resgate. O Chico tentou colocar eles pra conversar com a seguradora. Eles disseram que não iam negociar com a seguradora, desligaram o telefone e nunca mais tivemos contato com eles”, relata o motorista, que tem mais de 50 anos de experiência em transporte de cargas, mas se aposentou depois da pandemia da Covid-19.

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Uma profissão que cobra da família

Augusto Zanette, hoje aposentado, com a esposa Rita, na casa da família, no bairro Luther King, em Francisco Beltrão

“Pra nós, foi um momento de muita angústia, nossa filha, a Kelli, era pequena. A gente não pensava que isso fosse acontecer com ele. Eu fui saber por outras pessoas, começou a chegar gente lá em casa, aí eu vi que era muito sério mesmo, mais que eu imaginava. Mas graças a Deus deu tudo certo e estamos todos juntos em família. Por causa da profissão dele, eu tive que criar a nossa filha praticamente sozinha. Tinha viagens que ele ficava até 60 dias fora de casa, eu tinha que ir em reunião de escola, catequese, tudo sozinha. É uma profissão que tira a pessoa do convívio da família. Tanto que, quando ele se aposentou, eu e a Kelli que insistimos pra ele não ir mais pra estrada”, afirma Augusto, que nasceu em Francisco Beltrão, em 1953.

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