Doença desencadeada pelo glúten, você pode ter e não saber

Dra. Elizamara Segala, pediatra, destaca a importância de identificar a doença celíaca

Uma dorzinha na barriga hoje, outra pior amanhã, no dia seguinte amanhece melhor, a mãe suspeita de cólicas ou que comeu algo que “fez mal” novamente, mas logo passa. Uma diarreia que “vai e volta” e o pequeno não ganha mais peso adequadamente, por vezes reduz a velocidade do crescimento, o apetite, e assim os dias passam, os meses passam e na esperança de melhorar, a família parece se adaptar as frequentes intercorrências.

20 de maio, Dia Nacional do Celíaco
Para conscientizar a população sobre a Doença Celíaca (DC), 20 de maio é comemorado no Brasil o Dia Nacional do Celíaco, pois a DC é mais frequente do que se imagina. Estima-se que acomete uma em cada 100 pessoas. É uma doença autoimune, caraterizada pela intolerância permanente ao glúten, em pessoas geneticamente predispostas. Ao consumir alimentos com glúten ou traços desses, provoca uma reação imunológica no intestino delgado, gerando uma inflamação crônica, destruindo a mucosa e culminando na atrofia das vilosidades intestinais, que impedirá a absorção adequada dos nutrientes, explica dra. Elizamara Segala, pediatra.

Ambiente familiar como rede de apoio
O glúten é o nome dado a um conjunto de proteínas presentes em alguns cereais, como trigo, aveia, centeio e cevada. O fato de estar presente em quase todas as refeições dos brasileiros traz para o celíaco e para a família muita insegurança, pois, a

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“O Lucas sempre havia sido uma criança muito saudável, mas há cerca de 2 anos começou a apresentar dor abdominal frequente, diarreia, gazes excessivos e não ganhava peso adequadamente. Começou a queixar-se de palpitação no coração, e foi isso que nos motivou a levá-lo consultar. Marquei uma consulta no Centro de Saúde Cidade Norte, e foi a Dra. Elizamara Segala quem o consultou e solicitou os exames com suspeita para doença celíaca e alteração de tiroide. Os resultados deram positivo e levamos um susto, pois não entendíamos exatamente como proceder e não conhecíamos nada sobre intolerância ao glúten. Iniciamos a dieta logo em seguida, mas penso que tardiamente, pois já haviam repercussões da doença. Hoje o Lucas está com 8 anos, muito consciente e adaptado à dieta, assim como todos nós, pois nossa casa aderiu à dieta dele e hoje ele está com a doença controlada. O controle da doença celíaca também ajudou a compensar o hipertireoidismo. Hoje somos cientes do prejuízo da doença celíaca sem o tratamento e entendemos que não deveríamos ter esperado tanto para procurar ajuda médica. Também cito a importância de termos profissionais de saúde capacitados e atualizados no diagnóstico de doenças autoimunes”, comenta Claudia Silva, mãe do Lucas.

té o momento, a dieta sem glúten é o único tratamento eficaz. Para a dra. Elizamara, a família toda deve estar envolvida no processo de tratamento, desde buscar informação sobre a DC e aderir à dieta do celíaco no ambiente familiar, pois é uma forma de apoiar e proteger o celíaco, proporcionando um ambiente seguro e acolhedor.

As manifestações da doença
A DC pode manifestar-se em qualquer idade, desde que o glúten já tenha sido introduzido na alimentação e existem três formas clínicas principais: Doença celíaca clássica com sintomas típicos (em que predomina a diarreia crônica, aftas frequentes, má qualidade de esmalte dentário, sendo mais comum na infância); doença celíaca atípica, mais comum em adultos, onde os sintomas gastrointestinais geralmente estão ausentes e quando presente, tende à constipação. Pode apresentar anemia por deficiência de folato, deficiência de vitamina B12, atraso na puberdade, baixa estatura, infertilidade, abortos recorrentes, transtorno psiquiátrico, osteoporose, etc. Por último, doença celíaca assintomática ou silenciosa, caracterizada pela comprovação da presença de anticorpos e biópsia anatomopatológica do intestino delgado na ausência de sintomas significativos da doença. A eliminação do glúten da alimentação permite que o intestino regenere por completo da lesão e o organismo recupere. “Contudo, se houver reintrodução do glúten, as inflamações retornam e os sintomas reaparecem”, diz dra. Elizamara.

Estima-se que mais de 50% dos celíacos, antes do diagnóstico, apresentam intolerância à lactose secundária aos danos que a DC causa no intestino, pois a enzima lactase é uma das primeiras enzimas que desaparecem das vilosidades intestinais quando são danificadas. “É como se a célula, de alongada verticalmente ficasse retificada, perdesse o seu ápice, local onde se encontra a enzima lactase. Quando o celíaco, já diagnosticado, inicia a dieta isenta de glúten, consegue recuperar suas vilosidades e também a enzima lactase, de modo que, grande parte deixa de ser intolerante à lactose”, comenta.

Nem sempre o diagnóstico é tão rápido, a mãe Kassiara Royer é um exemplo disso, ela comenta da dificuldade que teve em chegar a um diagnóstico pra filha Amanda. Já Claudia Silva, mãe do Lucas, acredita que deveria ter buscado ajuda médica muito antes.

 

A causa da doença

Para a pediatra dra. Elizamara Segala, a razão pela qual apenas algumas pessoas geneticamente predispostas desenvolvem a doença não foi ainda esclarecido. “É como se fosse um triângulo, em que a base é composta por pessoas com predisposição genética, porém, apenas a parte do meio do triângulo é composta por pessoas com sintomas, e o ápice, compostos por pessoas com biópsia intestinal acusando dano duodenal, ou seja, confirmatório para DC.” A etiologia é multifatorial, devendo-se levar em conta a introdução precoce do glúten na alimentação dos lactentes, fatores imunológicos e genéticos.

A médica ressalta que existem muitos diagnósticos diferenciais para dor abdominal, inclusive sensibilidade não celíaca ao glúten, na qual a pessoa sente os sintomas semelhantes, mas a barreira intestinal permanece íntegra. O importante é não demorar para buscar ajuda médica se sinais ou sintomas forem recorrentes. Pois, para o celíaco, o tratamento precoce reduz muito o prejuízo na saúde e na qualidade de vida, principalmente na criança, que está em constante desenvolvimento. A dra. comenta que, além dos sintomas característicos da DC, uma gama de indivíduos apresentam doenças que se relacionam com DC e devem ser submetidos ao rastreio, como diabetes mellitus tipo 1; alterações na tireoide; síndrome de Down, de Turner, deficiência severa de IgA, entre outros. Parentes de primeiro grau do celíaco também devem ser rastreados.

“Por muitos anos minha filha acordava e dormia com dores abdominais fortes e constantes, na grande maioria das manhãs eu olhava para ela, e ela estava gemendo de dor. Ficou internada por mais de 30 vezes em diferentes hospitais, com vários diagnósticos, passamos por vários pediatras. Amanda estava com desnutrição leve, falta de apetite e, além das dores abdominais, apresentava diarreia, aftas, enxaqueca, fraqueza, olheiras e carências de vitaminas e minerais. Por volta dos 6 anos de idade, em uma crise de dor severa, levamos ela novamente ao hospital; neste dia, a dra. Elizamara Segala estava de plantão. Após eu chegar desesperada, já cansada por muitos anos desta rotina entre idas e vindas dos hospitais, eu desabei como mãe na sala de consulta e pedi socorro, pois não era normal uma criança viver com dor. Foi quando a dra., que pela primeira vez atendia a Amanda, analisou todos os laudos e dados cuidadosamente e claramente me falou: ‘Tenho quase 100% de certeza que sua filha é celíaca’. E o que seria isso? Como pais, pouco sabíamos sobre a doença. Começamos a investigação com os testes sorológicos, que vieram positivos, e então realizamos a biópsia intestinal, que foi confirmatório. No resultado final, minha filha estava com classificação Marshall 3, estágio avançado da doença celíaca. Isso explicava a dificuldade de absorção dos nutrientes e todo quadro que ela apresentava. Após o diagnóstico, começamos com os cuidados diários de restrição total ao glúten. Nossa luta é diária, o tempo todo, devido às restrições alimentares e aos cuidados com as contaminações cruzadas, mas estamos evoluindo. Desde então, minha filha, hoje com 9 anos, engordou 9 kg , acorda feliz e cantando, brinca sem dor, graças ao diagnóstico correto. Doença celíaca não é frescura, muitas pessoas podem ter já na infância, ou desenvolver ao longo da vida e, quanto mais cedo obtiver o diagnóstico, mais fácil ficará de tratar e ter uma vida muito mais leve e feliz”, destaca Kassiara Royer, mãe da Amanda.

 

 

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