Janaína Ribeiro França, um exemplo de dedicação aos estudos

Mesmo com dificuldades, a estudante conseguiu uma vaga no curso de Medicina da UFFS e agora está no 5º período.

Janaína: persistência total na busca do seu ideal de vida.

Conseguir entrar num curso superior no Brasil se tornou mais fácil devido à criação de faculdades e universidades nas cidades do interior e à expansão do ensino a distância. Agora, superar dificuldades de aprendizagem e financeiras, entrar numa universidade pública e gratuita, morar longe dos familiares e ainda ter uma grande carga de estudos só é possível com superação pessoal. Estudantes que conseguem vencer diversos obstáculos se tornam referência. Janaína Ribeiro França, 26 anos, de Francisco Beltrão, é um desses exemplos. Após enfrentar várias dificuldades, ela conseguiu ser classificada pelo Sistema Unificado de Seleção (Sisu), por cota do ensino público, para o curso de Medicina na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).
Janaína nasceu e se criou em Francisco Beltrão, é filha de Maria Florentina, zeladora da CDL, e Gilmar França, que trabalha com serviços gerais. O casal teve dois filhos e mora no Bairro Pinheirão. A jovem sempre estudou em escola pública — Escola Municipal Recanto Feliz e Colégio Estadual Tancredo Neves — e teve uma breve passagem pelo Colégio Alfa. Antes de chegar ao curso de Medicina, ela “ralou” bastante. Foi vendedora na rodoviária municipal, pesquisadora na Radar Inteligência, balconista de farmácia e agente comunitária de Saúde no Bairro Pinheirão. Com o salário de agente de saúde, já conseguia se manter e pagar o cursinho.
A convicção de que queria ser médica surgiu aos 16 anos. “Foi desde o início da minha carreira, quando eu trabalhava em farmácia, que percebi que poderia ser algo da área de saúde, mais especificamente Medicina, foi aí que eu vi que meu potencial era para uma profissão de maior responsabilidade, que eu poderia ter um amplo contato com o paciente, que eu pudesse decidir o tratamento dele e também orientar”, conta Janaína.

Momento decisivo
A decisão foi tomada na adolescência, mas até entrar para o curso de Medicina foi uma longa jornada, com idas e vindas. “Eu tive sempre boas notas, sempre fui uma aluna dedicada, sempre dava muita prioridade ao estudo, mas eu sabia que deveria estar mais preparada. Aí eu sempre tentava mentalizar, procurava outros meios de matérias, por mais que meus professores do ensino público me auxiliassem, eu sentia que tinha que procurar mais, eu sempre mantinha uma rotina regrada pra não perder o ritmo.”
Antes de conseguir a vaga em Medicina ela iniciou o curso de Geografia, na Unioeste, Campus de Francisco Beltrão, mas acabou desistindo. “Eu fiz Geografia porque não queria ficar parada, eu poderia simplesmente ter terminado o ensino médio e ter ficado estudando em casa, só que eu tinha medo de ficar no comodismo. Fiz o curso, fui tentando, inclusive nas provas da faculdade eu ia estudando outras matérias pra prestar o vestibular. Até um professor meu, falou: ‘Você está se enganando, fica em Geografia’. Eu falei que ‘não, vou ficar até a hora que eu aguentar’, aí consegui um trabalho na área de educação. A partir dali que eu dei um ponto final, não tinha condição de continuar. Como eu ia atuar numa área que eu não tinha conhecimento, que a minha formação seria outra?”
Ela trancou o curso de Geografia e no ano seguinte iniciou o cursinho preparatório para o vestibular e o Enem no Colégio Alfa. Mas Janaína não contou para os familiares que tinha desistido da faculdade e que estava no cursinho. “Fiz um semestre sem contar pra ninguém. Aí contei pra minha mãe. Ela pensou: ‘Pronto, vai descansar um pouco’, mas tava muito enganada, assim eu comecei a focar no que eu queria.”
Janaína estava convicta de que queria cursar Medicina. Ela já estava fazendo vestibulares desde o início desta década, disputou, inclusive, o primeiro vestibular de Medicina da Unioeste, Campus de Beltrão, em 2012. “Só que eu não fiquei numa classificação boa, não estava preparada, foi um dos mais concorridos que teve. Aí eu comecei a ver que poderia fazer outros vestibulares. Mas como eu tava fazendo acompanhamento com um psiquiatra em 2017, ele disse: ‘Não! Vai que o teu potencial é pra fora, teu potencial não é pra ficar aqui na região’. Depois, eu percebi que podia passar em outro lugar, eu consegui notas boas e passei.” Ela fez cerca de seis vestibulares na área de ciências da saúde. Prestou vestibular para Medicina sem passar em nenhum deles, passou em Farmácia na UEPG (3º lugar), em Odontologia na Unisep de Francisco Beltrão e até conseguiu classificação pelo ProUni para o custeio da faculdade. Mas o sonho era passar em Medicina.

Como foi a batalha
Depois das várias tentativas, enfim Janaína conseguiu entrar em universidade pública como cotista, por sempre ter estudado em escola pública. Uma semana antes ela tinha sido chamada pela Universidade Federal do Amapá (Unifap). Mas a UFFS, campus de Passo Fundo (RS), abriu a terceira e quarta chamadas. “Eu tinha achado uma pessoa pra me representar lá na Unifap, em Macapá, que ia entrar com a documentação. Ela falou: ‘Vai chegar em cima da hora os teus documentos’.” Janaína expediu a documentação pelo Correio, mas decidiu esperar mais um pouco antes de confirmar a matrícula.
Quando saiu a chamada para uma vaga na cota de escola pública na UFFS, em Passo Fundo, havia uma pessoa na frente de Janaína. “Mas chamam umas 10, 12 pessoas pra vaga porque nem todos vão, alguns passam em outros lugares, outros desistem, aí tinha uma menina na minha frente, ela me informou que não ia poder entrar porque não se enquadrava na vaga, ela colocou apenas por colocar a nota. E eu acredito que, por eu ter entrado tão tarde, que é o que acontece com muitas pessoas, porque nem todo mundo que está na tua frente vai conseguir comprovar os dados pra vaga, se você entrou, é porque é tua vaga, eu acredito nisso. Uma colega me falou, depois, que abriu uma vaga só na cota: ‘Essa vaga foi feita pra você, não adianta vir dez pessoas pra tentar a vaga’.”

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Muita burocracia
A estudante ficou feliz e chocada, ao mesmo tempo, porque conseguiu a matrícula, só que as aulas tinham começado há 30 dias e num curso que tem grande carga de conteúdos para serem lidos e estudados. Algumas provas e trabalhos já tinham sido aplicados pelos professores. “Foi difícil no começo pra conviver com a minha turma, eu fui chamada numa quinta-feira, à noite, e na sexta-feira tinha que correr atrás de toda a documentação que faltava, porque eles são bem burocráticos, e na segunda eu já teria que estar lá, teria só o fim de semana pra organizar as coisas. Quando tive que ir atrás de documentos, a maioria dos estabelecimentos estava fechada. Na segunda-feira, às 13h, tava eu lá e todas as outras pessoas ficaram atrás de mim, tinha, acho, que umas sete, oito pessoas e eu vi que só tava eu da lista, uma das alunas com quem eu falei nem foi. Aí eu pensei vou ficar calma que é a minha vaga, e veio todo o transtorno de comprovar os documentos, tem que ser tudo interpretado, porque são várias pessoas que vão te avaliar, são vários parâmetros pra conseguir se declarar naquela cota e, principalmente, a renda é muito avaliada, se passar um real, você não consegue entrar naquela vaga. Eu tive que voltar depois, eu tinha dois dias pra retornar porque faltaram documentos bancários. Meu pai ficou muito chateado e falou: ‘Não! Essa vaga não é pra você, Medicina não é pra pobre’, e eu falei: ‘É, sim, pai, só faltou isso, comprovar alguns dados’. Voltei na quarta-feira, à noite, de ônibus, sozinha. Porém, meu pai não queria que eu voltasse pra lá. Falou: ‘Você vai passar em Beltrão’. Aí eu falei: ‘Não, estou cansada de estudar’. A assistente social do curso falou com ele: ‘Pai, deixa que ela volte, é só isso que está faltando pra ela’.
Aí eu voltei lá na quinta-feira, entreguei os documentos, voltei pra Beltrão e na sexta-feira teve a homologação da vaga. Eu comecei na segunda-feira as aulas, viajei sábado à noite e, domingo, tive sorte de encontrar um lugar pra ficar, numa pensão. A primeira semana foi um transtorno pra mim.”

Algo marcante
Janaína tinha conseguido, enfim, a tão sonhada vaga em Medicina. Apesar da alegria e do espanto, por entrar depois de 30 dias de aulas, ela afirma que chorou bastante, “foi algo que marcou muito pra mim, porque foi como a assistente social do curso falou: ‘Teu cordão umbilical foi cortado muito rápido’. Eu não tive um tempo de passar um mês ou uma semana pra me organizar, achar um lugar e tal, foi do dia pra noite, literalmente, eu tinha que fazer uma escolha, eu tive que pedir a conta no emprego em Beltrão, tive que resolver todas as minhas coisas pendentes aqui na região em um dia. Ainda ficou pendente o cursinho, que eu tive que cancelar a matrícula depois”.
Atualmente, ela está no 5º período do curso. As aulas retornaram em agosto e as práticas estão transcorrendo normalmente, mesmo com a pandemia do coronavírus. Algumas aulas teóricas são ministradas por ensino remoto/EAD. O curso de Medicina da UFFS foi o primeiro do Brasil, entre as universidades públicas, a retomar as aulas presenciais.

Muita dedicação
Até aqui, ela superou os obstáculos da faculdade com muita dedicação e esforço. Janaína diz que foi “com muito estudo, até fiquei um pouco deprimida no começo, porque eu não queria atrasar um semestre, já tinha demorado tanto pra passar, mas alguns amigos e colegas já formados falavam: ‘Não fique se culpando por isso, não vai fazer diferença você se formar seis meses antes ou depois, o que importa é que o teu conhecimento vai estar consolidado e tua consciência de saber que tu teve um tempo para estudar, adequado’, que não tinha como eu querer uma nota boa com o mínimo possível de aula que eu tinha tido no começo”.
Janaína Ribeiro França passou alguns dias em Francisco Beltrão. Nos períodos da pandemia e de férias, a estudante aproveitou para acompanhar atendimentos aos pacientes em unidades de saúde e hospitais. Ela também visitou o Colégio Tancredo Neves para rever a diretora Lúcia Rocha e a vice-diretora Rosecler Santin. No meio desta semana, voltou para Passo Fundo, já que o curso retomou suas atividades presenciais.

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