Quando dados mostravam urgência de uma UTI Neonatal na região, direção do HRS agiu e criou a unidade. O primeiro paciente, prematuro de 31 semanas, completou nove anos em 2020 e a mãe lembra de como quase perdeu o filho e recebeu amparo de equipe médica.
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A intenção era esperar, disseram os médicos à empresária Daiane Macári, de 24 anos. A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Hospital Regional do Sudoeste (HRS) ainda não havia sido inaugurada em março de 2011 e seria o local mais adequado para que seu filho nascesse. A gestação estava no sétimo mês, mas apresentava complicações desde a fase embrionária, com diversas ameaças de aborto que nem Daiane consegue mensurar. No dia 22 daquele mês, com 31 semanas, a situação complicou devido a um deslocamento da placenta que sofrera ainda nas 13 semanas de gestação, que restringiu o espaço de crescimento do bebê e que agora sufocava a criança. Internada às pressas em um hospital da cidade de Pranchita, ela logo foi transferida para o Hospital São Francisco, em Francisco Beltrão, onde deveria ser acompanhada até a cesária que os médicos queriam realizar no HRS. Mas não pode esperar.
“No dia 26 de março de 2011, que foi um sábado, nós tivemos que fazer a cesária. Os médicos, vendo um dos exames, que era feito logo pela manhã, viram que não tinha mais tempo, não tinha mais como esperar. Então no dia 26, às 15h05, o Joaquim nasceu”, lembra Daiane.
Joaquim não era o primeiro bebê a nascer prematuro no município, mas as condições que seriam ofertadas no HRS, com um ano na época, seriam melhores, caso a UTI Neonatal estivesse em funcionamento.
Segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) obtidos pelo DataSUS (plataforma de dados do Sistema Único de Saúde), de 2007 a 2011, ano em que Joaquim nasceu, o número de prematuros nascidos, juntos, era de 907 no município – isso não significa que todos os nascidos são de Francisco Beltrão, já que há partos que ocorriam na cidade de pessoas de outros municípios. São considerados prematuros os bebês que nascem antes de 37 semanas. Nesse grupo, as crianças que nasceram com menos de 22 semanas no mesmo período eram nove. De 22 a 27 semanas, 56. De 28 a 31 semanas, onde está o caso de Joaquim, 95, e de 32 a 36 semanas, 747.
Os números davam a dimensão da necessidade de um espaço para atendimento especializado. O então diretor do HRS, médico Badwan Jaber, buscou, junto de uma equipe, as maiores deficiências da saúde regional e constatou esta urgência (que só passou a ser efetiva na inauguração, em 7 de abril de 2011) com a chegada, às 11h15, do primeiro bebê: Joaquim.
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“A gente imagina ter filhos, mas nunca nessa situação”
Joaquim não havia sido um bebê programado. A gravidez surpreendeu Daiane, que utilizava método contraceptivo, e foi descoberta após sangramentos e sucessivos exames de ultrassom. “A gente imagina ter filhos, mas nunca imagina nessa situação”, desabafa. “Várias vezes os médicos me deram a oportunidade de interromper a gravidez, pois falaram que não daria certo, que seria uma gravidez bem conturbada, que não chegaria ao fim a gestação e deram a oportunidade para abortar. Nenhuma das vezes eu aceitei. Falei que se fosse pra perder era Deus que iria tirar e eu ia levar do jeito que fosse até aonde Deus quisesse que a gestação seguisse.”
Como previsto pelos médicos, a gravidez foi “conturbada”, com dores e adaptações até o nascimento de Joaquim. Após a gestação, parto e primeiros dias, Daiane passava para uma outra etapa quando chegou a UTI Neonatal do HRS. Por ser a primeira mãe com filho, tinha toda a equipe à disposição – pessoas por quem nutre afeto nove anos depois, pelas vezes em que seguraram sua mão e a firmaram na espera do tratamento. Dali, viu a entrada e saída de outros bebês. Viu também Joaquim ganhando e perdendo peso, e viu a chegada de um dos momentos mais difíceis do processo: o corpo de Joaquim funcionar apenas com auxílio de equipamentos.
Depois de dois meses na UTI Neonatal, o cansaço tomava seu corpo quase como uma doença. A sobrecarga mental também pesava, mesmo tendo amparo de psicólogos. Por isso, mesmo Joaquim com ileostomia (desvio do intestino feito cirurgicamente que o fazia defecar pela barriga) foi para casa, retornando em 28 dias por complicações maiores.
“Quando foi no dia 27 de julho de 2011, o Joaquim estava com uma infecção gravíssima. Deu três paradas cardíacas nele, uma parada cardiorrespiratória, os órgãos dele já fazia 24 horas que estavam sem funcionar, os rins não estavam mais funcionando, o intestino não estava mais funcionando, a saturação dele estava péssima. O pulmão dele estava com oxigênio 100%, não fazia mais os movimentos sozinhos, o pulmão, só com a máquina. O coraçãozinho dele recebendo cada 30 minutos adrenalina para parar… Ou seja: a médica falou que naquele dia nós tínhamos perdido o Joaquim.”
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Segundo nascimento
Cirurgiã pediátrica, Mary Angela Sabadin era quem estava à frente dos atendimentos naquela época. Como conduta, sempre adotou a postura de transmitir aos pais do paciente expectativas realistas, mas Joaquim pareceu um caso à parte. “A complexidade do caso, assim como sua evolução foram um grande desafio para toda equipe que se revezou nos seus cuidados. Apesar da gravidade e das múltiplas intervenções que se sucederam, nós podíamos perceber a força e a vontade de viver que ele tinha. Também era nítida a fé e a esperança de todos os seus familiares”, recorda-se.
Naquele 27 de julho, a família de Daiane estava com ela. Seu marido estava com ela. Não querendo nutrir egoísmo e pensar em ficar com a criança a todo custo, imaginava o sofrimento do bebê e o “entregou nas mãos de Deus”. Só após horas é que tomou seu marido e pediu que fossem ver como o primogênito estava. Tinha medo do que encontraria na UTI. Mas foi. E desta vez o choro que a tomou não foi por dor, mas por alívio. “Quando abri a porta da UTI, eu encontrei a doutora com um monte de papel na mão, com um sorriso de orelha a orelha, me abraçou e falou que o Joaquim tinha uma missão muito grande aqui na terra (…). O Joaquim voltou por um milagre de Deus e pela equipe maravilhosa que cuidou dele. Pelos médicos excelentes que cuidaram dele e, a partir daquele dia, de 27 de julho de 2011, às 16h, é que o Joaquim voltou a viver.”
Após a situação crítica, Joaquim foi submetido a novos medicamentos que o tiraram da linha entre vida e morte e o colocaram em vida. O corpo respondeu ao tratamento e gradualmente foi deixando os aparelhos para viver de forma orgânica. Em novembro daquele ano a família pode ir para casa e, este ano, completar nove anos de Joaquim.
“Nossos laços com o Joaquim e sua família sempre se manterão”, diz a médica Mary Angela. “Tenho certeza que toda equipe que se envolveu nos cuidados do Joaquim jamais o esquecerá. Assim como no meu, ele anda de pantufinhas no coração de todos.”
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