Pessoa já infectada pelo novo coronavírus, que superou a doença, está imune? Quando ela deve fazer exame para saber se seu organismo criou anticorpos? Se tem anticorpos, deve tomar vacina?

Quem responde é o farmacêutico Adolfo Fiorenzano. Formado pela Unipar, de Umuarama, ele atua em Francisco Beltrão desde janeiro de 1999. É proprietário da Farmácia Crito Rei, do Bairro Cristo Rei e do Laboratório Biolar, de Foz do Iguaçu.
O exame para saber se a pessoa gerou anticorpos deve ser feito quanto tempo depois da manifestação do vírus?
Adolfo – Sempre que se fala de exame laboratorial, a gente precisa destacar os exames e entender o efeito de cada exame como diagnóstico, por exemplo, hoje nós temos os chamados testes rápidos que são os testes que dizem se você produziu anticorpos pensando em IGMGG.
O teste rápido nós temos dois tipos, o para buscar IGMGG e o para buscar antígeno. O que é a busca de IGMGG? Quando você entra em contato com o vírus, o organismo produz anticorpos. Esses anticorpos são produzidos e quando você faz o teste rápido, obviamente sete, dez dias depois do contágio, que é o tempo necessário para o organismo produzir os anticorpos, ele vai detectar a presença do anticorpo.
Se, por ventura, ele teve o contato, ele produziu anticorpos, vai detectar IGM. Geralmente detecta isso no primeiro momento que é uma imunoglobulina nova, e detecta como IGM positivo e, mais tardio, depois de 30 dias, 60 dias você já começa a ter o aparecimento do chamado IGG, que é uma imunoglobulina mais tardia que demonstra que o paciente tem a produção de anticorpos.
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Qual a diferença de um tipo de exame e outro?
Eu posso testar o paciente para verificar se ele já tem o anticorpo pelo teste rápido, IGMGG, mas esse exame só vai me dizer se teve contato ou não, ou seja, tem presença de IGM que é um anticorpo novo ou tem presença de um anticorpo velho, ele não me dá um quantitativo.
E o segundo teste rápido, que é o que as farmácias e laboratórios fazem hoje, dando o laudo em 15 minutos, mesmo usando o por cotonete, que enfia no nariz, faz a coleta, joga em um cacetezinho e vai dar um resultado positivo do vírus. Quando se fala em antígeno, a gente está procurando vírus, é um exame super sensível, eu acho hoje um exame problemático para o Brasil.
É um exame de triagem, ajuda na triagem mas é um exame que tem menos sensibilidade, um exame caro mas com pouca sensibilidade. Pensando numa sensibilidade maior, seria o exame de PCR, que é por biologia molecular, uma técnica que a gente também introduz o suabe (cotonete) no nariz do paciente, coleta e coloca num tubo. No nosso caso, nós mandamos a Foz do Iguaçu, rodamos esse exame em Foz, a gente faz uma replicação desse vírus, uma identificação desse RNA, do vírus, e você faz uma extração desse vírus, isola o vírus e depois manda para um sistema de termociclador para fazer a identificação se aquela amostra tem a presença do vírus ou não.
É uma técnica muito mais complexa, é o padrão ouro para identificação do vírus que é o exame de PCR. É o exame mais ideal para saber se o paciente tem ou não, o vírus, dentro do período sintomatológico que se diz que seria do primeiro dia até o 15º dia. E o terceiro tipo de exame que seria sorologia, isso que é tão importante agora, para o momento, porque na sorologia você consegue identificar se aquele paciente que teve contato com o vírus produziu ou não os anticorpos. Hoje, inclusive, a gente fala em sorologia quantitativa, porque você consegue medir a concentração de anticorpos no organismo.
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Por exemplo, o Laboratório BioLabor disponibiliza, através da Beckman Coulter, um exame de sorologia quantitativa, você consegue medir a quantidade de anticorpo que o paciente já tem no sangue. Essa quantidade é importante para fazer uma avaliação e se há necessidade de uma vacinação ou não. Através desses índices você consegue perceber qual é o tempo de contaminação desse paciente, e o bacana de tudo isso é que as sorologias buscam a presença de uma proteína S, que é os anticorpos neutralizantes da proteína S.
Isso é a grande chave do negócio, porque o Covid-19 é um vírus que apresenta a proteína S, chamada coroa, chama coroa de espinhos, por isso corona vírus. Essa coroa é uma proteína, chamada proteína S. Nosso exame de sorologia busca o anticorpo que neutraliza essa proteína S. Por isso, que a sorologia quantitativa é a mais ideal. Existem alguns laboratórios que fazem a sorologia qualitativa, ela só vai dizer se tem ou não tem anticorpos, essa já não é específica para sorologia quantitativa que é o nosso caso, ela pega especificamente os anticorpos neutralizantes dessa tal, chamada, proteína S.
Sobre a sorologia da quantidade, existe uma quantidade certa, varia muito?
Existem os referenciais. Nossos laudos dão o referencial, por exemplo, paciente acima de 1, percentual 1, acima de 1, ele já tem anticorpos para IGM, acima de 1 ele já tem anticorpos para IGG. Obviamente, o paciente quando é submetido ao exame de sangue, vai me dizer qual é o percentual desse quantitativo de anticorpos que o paciente já tem no sangue. Quando se fala dessa proteína S, a gente lembra das vacinas. O que são as vacinas? As vacinas nada mais são do que você aplicar no paciente com o intuito do paciente produzir anticorpos para neutralizar essa chamada proteína S.
A vacina é como uma contaminação com o vírus?
Exatamente, é como se fosse isso. A vacina é você aplicar no paciente uma substância que vai fazer com que o organismo produza anticorpos para combater o vírus. No caso das vacinas para Covid-19, o objetivo é aplicar a vacina no paciente, fazer com que o organismo produza anticorpos para neutralizar essa chamada proteína S, que está presente no vírus. Quando a gente fala de vacina, se for estudar, existem três tipos de vacinas no mercado. Na verdade, já existem mais 44 que estão em fase de teste. No Brasil são 10, mas a gente divide as vacinas em três grupos. Na fabricação dos tipos de vacina o primeiro grupo são as vacinas feitas do vírus. O vírus é multiplicado em laboratório.
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Óbvio que o laboratório precisa ter um nível de biossegurança altíssimo, porque você mexe com o vírus propriamente dito. Então você multiplica esse vírus várias vezes. Vai me dizer qual é o percentual desse quantitativo de anticorpos que o paciente já tem no sangue. Nada mais é do que você aplicar uma vacina no paciente com intuito do que o paciente produzir anticorpos para neutralizar essa chamada proteína S. Essa substância vai fazer com que o organismo produza anticorpos para combater. O objetivo é aplicar a vacina no paciente, fazer com que o organismo produza anticorpos para neutralizar essa chamada proteína S, que está presente lá no vírus, aí.
O vírus se reproduz e depois você inativa esse vírus, seja através de temperatura, seja através de substâncias químicas, você mata esse vírus mas mata todos os vírus, mas faz com que esse vírus permaneça com a proteína S. Então, você pega aquele vírus morto, atenuado, e aplica nas pessoas, que é a vacina, por exemplo, da China, a Biovac com parceria aí do Instituto Butantan, do Brasil. Eu acredito que talvez seja uma das melhores. Tem o segundo grupo que já é diferente, eles pegam um vírus chamado adenovírus e implantam no vírus, a proteína S. Quando essa vacina é aplicada, o organismo reconhece aquela proteína S e vai produzir anticorpos.
Quando ele entrar em contato com o vírus Covid-19, ele já tem um anticorpo que vai se ligar naquela proteína S, do vírus, para inativar o vírus, neutralizar o vírus, do Covid-19. Essa é a segunda vacina que é a vacina da Rússia, Sputnik. E tem a vacina, também, da AstraZeneca. A diferença entre a da Sputnik, da Rússia, com a vacina da AstraZeneca é que a da AstraZeneca pega um adenovírus que foi tirado de chipanzé. Eles inativam o vírus para que não se multiplicar quando aplicado no organismo, só. Eles acoplam no vírus, essa proteína S. Aí, que vai ser o marcador, quando for aplicada a vacina na gente vai produzir os anticorpos para isso. E tem um terceiro tipo de vacina que são as chamadas RNA e DNA. São as vacinas genéticas.
Eles pegaram o RNA do vírus e pegaram uma sequência de código genético do vírus que foi sintetizada. Quando aplicar vacina nas pessoas, o organismo reconhece aquela sequência de código, o próprio organismo produz a proteína S e produz anticorpos para combater numa segunda infecção, no paciente, quando entrar em contato com o Covid-19. Qual é o objetivo de tudo isso? O objetivo da vacina é você aplicar no paciente e o organismo produzir anticorpos que se liguem na proteína S do vírus do Covid, para neutralizar o vírus. De todas, o objetivo é o mesmo, porém as formas de fabricação dessas vacinas que são diferentes.
E a pessoa que já gerou anticorpo, porque teve contato com o vírus, fica imunizada com o tempo?
Exatamente, essa é uma pergunta que talvez seja mais coerente, porque se a gente analisa um paciente que teve uma contaminação por Covid, obviamente esse paciente terá que ter a produção de anticorpos. Uma grande preocupação que eu tenho em relação a tudo isso é que muitos pacientes foram dados como positivo e não são positivos. Essa é a grande pergunta porque, hoje, com essa questão dos testes rápidos, principalmente os testes rápidos de antígeno, está dando gente positivo e a sensibilidade pode dar reação cruzada, porque esse antígeno não é específico para proteína S.
Então, gente que tá com dengue fazendo exame para Covid com teste rápido e sendo positivo, o paciente achou que passou pelo Covid, às vezes nem Covid foi, foi uma dengue. Essa é minha grande preocupação de tudo isso. Por isso que o exame de sorologia é a grande chave para tudo isso. A sorologia não vai errar, porque é feita por equipamento buscando essas tais imunoglobulinas. Quando o paciente é submetido a um exame de sorologia quantitativo com busca de anticorpos neutralizantes da proteína S, vai saber se ele está imunizado ou não. Se você perguntar o que é correto, todos os pacientes que foram infectados fazer o exame sorologia porque ele realmente vai saber se ele foi um caso positivo ou não. Aí tem uma segunda situação.
Você pode me perguntar “Adolfo, e se o cara já passou pelo Covid, foi detectado pelo exame de PCR positivo e hoje tá com anticorpos baixos, pelas referências baixas, aplica ou não a vacina?” Hoje muitos endocrinologistas relatam que não há problema de, mesmo o paciente sendo infectado e produzindo anticorpos, fazer a vacina. Não há problemas de fazer. A grande verdade é que vamos ter essas respostas ao longo dos meses. Nós só vamos ter essas respostas daqui seis meses. Por exemplo, eu tenho pacientes que fizeram a PCR em abril do ano passado, detectaram positivo e hoje fizeram sorologia e o nível de anticorpos altíssimo, ou seja, nós estamos falando de sete, oito meses e ainda há presença de anticorpos nessas pessoas com uma infecção que aconteceu há mais de oito meses.
Isso é indiciado em quem teve reincidência?
A recontaminação pode acontecer a qualquer momento, mesmo tendo anticorpos, porque a mesma coisa acontece com a pessoa que tomar vacina, ela vai entrar em contato com o vírus, ela vai ter uma infecção posterior. A diferença, se você já tem anticorpos ou não produzidos. Vamos imaginar o paciente que já contaminou há três meses atrás, lá em setembro ou outubro. Ele teve a contaminação com o Covid, ele criou anticorpos, hoje eu faço sorologia, ele tem anticorpos. Isso quer dizer que ele não vai pegar de novo o vírus? Lógico que ele pode pegar, isso chama-se recontaminação. Obviamente que se ele pegar novamente o vírus ele já tem o quê? Lá no seu sistema imunológico, anticorpos para combater, então a chance de dar uma infecção grave nele é muito pequena, porque ele já apresenta anticorpos.
Uma preocupação, hoje, dos infectologistas é com aqueles pacientes que tiveram sintomatologia muito leves. Só que esse estudo a gente só vai conseguir ver a partir desses pacientes reinfectados. Eu defendo uma opinião, uma vez imunizado, eu não vejo a necessidade de fazer reforço, eu defendo essa opinião que é a imunidade natural fisiológica. Você teve o contato com vírus e produziu anticorpos, está protegido.
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E por quanto tempo, quem gerou anticorpos pela vacina ou pelo contato com o vírus?
Essa é a grande chave de tudo isso, é a grande busca, seja através de pesquisas científicas e seja através dos exames laboratoriais, porque para gente saber isso, só o tempo. Dessas respostas ainda não se tem certeza. O que se sabe é que grande parte de pacientes que tiveram contaminação nos últimos seis meses ainda há presença de anticorpos. Agora, isso não tem como garantir se daqui um ou dois anos vai presenciar esses anticorpos ainda no sistema imunológico.
E no caso da vacina contra gripe que se faz todo ano?
Exatamente, por que se faz todo ano? Porque o vírus sofre uma coisa chamada mutação, que é uma alteração genética. Todo ano eles pegam uma cepa que tá causando o caso viral. Faz uma vacina para aquela cepa. Hoje nós temos mais de 100 mil tipos de vírus da gripe, então por que faz o reforço todo ano? Porque eles pegam aquela cepa que tá provocando a infecção viral naquela gripe e produz uma vacina especificamente para ela. Não vai ser diferente com a vacina do Covid-19, porque o vírus já está em mutação.
E sobre a vacina, qual sua preocupação maior: com os efeitos colaterais que ela vai trazer ou a falta de eficiência dela?
Olha, essa é uma pergunta talvez muito difícil de ser respondida porque a gente acredita que o objetivo principal é produzir e aplicar a vacina no paciente e esse paciente, através dessa vacina, ser imunizado. A minha pergunta primeira é só vamos ter essas respostas daqui quatro, cinco meses, ou daqui um mês. Pacientes que estão sendo imunizadas hoje com a vacina, daqui 30 dias podem ser submetidos a uma sorologia para identificar se ele teve a produção de anticorpos ou não. Então dentro de 30 dias você já consegue identificar se esses pacientes que já foram submetidos à primeira leva de vacinação no Brasil produziram anticorpos ou não.








