Vacina contra o HPV sofre resistência dos pais

Casos não comprovados de reações adversas divulgados na mídia e em redes sociais geram temor e mudam estratégia dos órgãos de saúde.

 

Vacina da rede pública protege contra quatro subtipos mais comuns de HPV.

 

O HPV (papilomavírus humano) é a doença sexualmente transmissível mais comum no mundo. Com mais de 120 tipos diferentes, estima-se que 50% da população sexualmente ativa já tenha sido infectada por algum genótipo do HPV. Dentre todos, 12 deles são considerados oncogênicos (causam câncer) pela Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (Iarc) e estão associados a neoplasias malignas, enquanto os demais subtipos virais estão relacionados a verrugas anogenitais e cutâneas.
No mundo e no Brasil, o câncer de colo do útero é a terceira causa de morte por câncer entre mulheres, fazendo, por ano, 5.264 vítimas fatais no país. Em 2014, as estimativas foram de 15,3 casos novos a cada 100 mil mulheres. Os tipos mais comuns são os HPVs 16 e 18, que em conjunto, são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero. No entanto, o HPV 16, sozinho, é a causa de aproximadamente 50% dos casos de câncer do colo do útero em todo o mundo. Sendo que HPV 6 e 11 estão associados a até 90% das verrugas anogenitais.
A prevenção deste tipo de câncer se dá através do uso de preservativos, do exame de papanicolaou e, mais recentemente, da vacina disponibilizada gratuitamente pelo Ministério da Saúde a meninas de 9 a 13 anos. O imunobiológico oferecido nos postos de saúde protege dos subtipos 6, 11, 16 e 18 e tem eficiência entre 97% e 99% na produção de anticorpos depois de completo o esquema vacinal. Nos Estados Unidos e na Austrália, as evidências da aplicação da vacina já apontam a redução pela metade nos casos de infecção por HPV e de mais de 90% dos casos de verrugas genitais.
Mesmo com toda evidência a favor da vacina, ela encontra alta resistência no Brasil. Pais e alguns médicos são reticentes quanto às reações adversas, como aconteceu em Bertioga (SP), onde 11 garotas que receberam a segunda dose em ambiente escolar apresentaram mal-estar após a aplicação. Três delas foram internadas para investigação e não apresentaram nenhuma sequela e passam bem, o que reforça o diagnóstico de reação psicogênica (distúrbio psicológico apresentado por um grupo de pessoas ao mesmo tempo) ao ter sido utilizada a vacina HPV em ambiente escolar.

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Vacinação nas escolas
A vacinação nas escolas públicas e privadas era uma das principais estratégias para se alcançar a meta de 80% preconizada pelo Ministério da Saúde. Em Francisco Beltrão, campanha para a primeira dose vacinou 87% do público-alvo. Entretanto, apenas 45% das meninas procuraram tomar a segunda dose. Casos como o de Bertioga ajudaram a criar o temor dos pais em torno da vacina, e a estratégia nas escolas teve que ser adaptada para um caminho mais longo e difícil: o da orientação e conscientização.
“Seria muito mais fácil levar a vacina às escolas, mas ficamos reticentes diante da resistência dos pais, mesmo sem nenhum caso de reação adversa grave. Optamos por levar, em parceria com o curso de Medicina, da Unioeste, palestras de conscientização sobre a importância da vacina aos pais e alunos”, comenta Kátia Schmidt, enfermeira da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde.
A campanha para aplicação da 1ª dose da vacina (o esquema completo possui três doses) em 2015 alcançou nem 45% do público-alvo no Paraná, de acordo com dados da 8ª Regional de Saúde. Em Beltrão, a vacinação alcançou apenas 37%, segundo a Secretaria de Saúde, entre março e agosto. “Os casos que saem na mídia e nas redes sociais atrapalham e o impacto da baixa cobertura só vai aparecer daqui a 10 anos”, afirma Beatriz Maria Berticelli, chefe da Seção de Vigilância Epidemiológica da 8ª RS.
Além do câncer do colo do útero, acredita-se que o vírus do HPV associado a outros fatores é responsável por 90% dos casos de câncer anal, 71% de câncer de vulva, de vagina e de pênis, e 72% dos cânceres de orofaringe. Para mais informações sobre a vacina, deve-se procurar a unidade de saúde mais próxima de casa.

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