A sensação de crise permanente em Brasília, com o mesmo pano de fundo da polarização dos últimos sete ou oito anos, esconde a profunda paralisia do nosso sistema político e dá ainda mais razão a quem detesta a política e seus atores principais.
Desta vez, porém, essa percepção geral é agravada por um protagonismo excessivo do STF e seus ministros no mundo partidário e eleitoral e, mais grave, nas relações internacionais, com um tarifaço dos EUA pesando sobre o país e a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro atiçando radicais atrás de votos e poder.
O ano de 2025 ainda não começou no Congresso, e em boa parte do governo também, o que nos leva crer que dessa dupla extrairemos pouquíssimos resultados concretos para vida diária das pessoas comuns. Mas aumentou muito a profusão de problemas e confusões envolvendo STF e, agora, o Congresso em sua disputa intestina alimentada pela antecipação do calendário eleitoral.
Só se faz política, e com as polpudas emendas de R$ 50 bilhões (!), além de muito cálculo político, nada mais. Ora, as Excelências estão lá para isso, é claro. Mas não só.
Atribui-se ao polêmico Delfim Netto a frase: “O Brasil só corre risco de terça a quinta”. Seria uma referência às bobagens produzidas por deputados e senadores durante a “semana parlamentar” encurtada, uma das mais fundamentais leis não escritas na capital. Hoje, nem isso é possível dizer (ou temer) de um Congresso que aprova pouca coisa relevante para justificar aos eleitores sua função e o seu mundo de vantagens.
É um baita clichê, mas também um consenso quase absoluto, dizer que político só lembra do pobre eleitor a cada quatro anos. Antes fosse. Sob o surrado pretexto de “visitar as bases”, a necessária produção legislativa já virou quase um acessório. Mas neste ano tende a zero.
E olha que tem muito tema importante que mexe diretamente com a vida das pessoas, como você e eu. O mais vistoso deles é a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. É um projeto com um claríssimo benefício ao cidadão, embora sobrecarregue o conjunto da sociedade ao tirar 20 milhões das garras do Leão. É precisamente este tema a maior aposta eleitoral do governo Lula para seduzir parte da classe média a votar no PT em 2026.
Tem as alterações na Lei Ambiental, bem importantes para acelerar obras caras ao próprio governo Lula (estradas, portos e até a perfuração da margem equatorial pela Petrobras) e permissões para ampliar a produção do agronegócio com algum ar de sustentabilidade.
Enquanto isso, a economia parece responder bem, mesmo no meio de tanta confusão e trapalhada. Tarifaço com efeito limitado, juros nas alturas e inflação ainda fora de controle não inibem desemprego menor, PIB resiliente e índices oficiais melhores que o esperado.
Tomara que Delfim, morto há dois anos, esteja certo em uma de suas mais lembradas frases: “Nós não temos competência para acabar com o Brasil”. Nem para isso, diria um cínico. Menos mal para todos.



