Hoje, mais de 120 mil presos em regime aberto, semiaberto ou domiciliar usam a traquitana. O custo mensal de cada uma beira os R$ 300.
Periga faltar no mercado o adereço mais exibido por suspeitos, acusados e condenados Brasil afora.
A julgar pela conversa da defesa do ex-dono do Master, também deve ser preciso contratar mais equipes para monitorar tanta gente graúda envolvida no escândalo.
A demanda pela tornozeleira, criada nos anos 1980 nos Estados Unidos, será turbinada assim que a versão contada pelo ex-banqueiro começar a vazar pelos poros de Brasília – se é que realmente sairá do campo das intenções.
Hoje, mais de 120 mil presos em regime aberto, semiaberto ou domiciliar usam a traquitana. O custo mensal de cada uma beira os R$ 300. Quem banca?
Todos nós, pagadores de impostos. É bem menos do que os R$ 40 mil/mês gastos com cada criminoso das cinco prisões de segurança máxima (dados do Ministério da Justiça). Nos estados, gastam-se entre R$ 1,5 mil e R$ 4,3 mil mensais – o país tem hoje 705 mil presos (42 mil no Paraná).
Há quem defenda sistemas mais baratos e resistentes a dribles de corpo. Pioneiro no tema, o juiz paraibano Bruno Azevedo prega a adoção de um chip debaixo da pele.
“É imperceptível e dificulta a retirada”, defende. Mas, pensando bem, e considerando o exibicionismo dos atuais e futuros envolvidos em malfeitos com dinheiro alheio, melhor manter o trambolho incômodo nas canelas dessa gente. Dá até prestígio para alguns…
Diante do medo crescente das tornozeleiras, sobretudo em círculos estrelados da política, segue em curso a “Operação Abafa” para conter a avalanche de investigações, vazamentos de informações e, mais que tudo, para reverter quebras de sigilo, convocações e a exposição pública nas CPIs do Congresso.
É conhecido o efeito Orloff, onde o soneto de um personagem diz ao outro: “Eu sou você amanhã”. Assim, melhor abafar.
Mas o inferno dessa turma, seja ele onde for, tem subsolo. Aliás, mais de um, como já demonstrou há uns 700 anos o mapinha rascunhado pelo poeta Dante Alighieri. A aventura dantesca, conectada a muitos episódios atuais, trata de Inferno, Purgatório e Paraíso.
Estivesse no Brasil de hoje, o florentino narraria não só encontros com Homero, Virgílio, Ovídio, Horácio ou Lucano. De selvas escuras e cheias de feras, falaria de indecisos e covardes na antessala do mal.
E daqueles que outrora desfrutaram gostosamente iates, jatinhos, carrões, mansões, ilhas, relógios e hoteis de luxo, tudo bancado com dinheiro público.
Dos nove círculos do seu Inferno, antes mesmo de cruzar o pântano com o horrendo barqueiro Caronte, trataria pelo nome cada um dos personagens em cartaz.
Falaria dos luxuriosos em seus redemoinhos, os gulosos afundados em lama, neve e granizo, além de avarentos e esbanjadores, irados e rancorosos, hereges, violentos, fraudadores e, no fim de tudo, de traidores.
Essa fauna toda habita a tragédia nacional e alimenta parte da nossa miséria. Alguns deles talvez evoquem uma máxima do portão do Inferno de Dante: “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais”.
Ou, ainda, uma frase profética do próprio poeta: “Não há pior dor do que a lembrança da felicidade em tempos de infortúnio.” Que venha o novo capítulo das delações Master.
100 anos!
Leitor voraz dos grandes clássicos, assíduo na arte das letras, profundo conhecedor das histórias da Antiguidade, dono de uma memória inigualável, recordista de permanência na Justiça do Paraná e cidadão honorário de Beltrão, o nosso sempre bem-humorado Egídio Zanatta comemoraria seu centenário nesta semana.
Certamente, acomodado em sua poltrona, de frente para a cidade à qual dedicou tantos anos de seu suor, lembraria vários causos da origem de Beltrão, do trabalho duro nos sertões catarinenses, das irmãs, do seu pai Teodoro e até de uma viagem à Brasília nos anos 1970.
E seria intensamente festejado. Levado aos 95 anos, em meio à tragédia da pandemia, em 2021, legou à família, ao município e ao Estado um exemplo de dedicação, inteligência, honestidade, caráter e retidão.
Em tom de brincadeira por sua longevidade, dizia-se “o garçom da Santa Ceia”. De fato, era uma enciclopédia desses tempos idos. Saudade, tio Egídio.



