No Dia Mundial da Saúde, reflexão destaca que o cuidado com a alimentação começa em casa e ainda recai, em grande parte, sobre as mulheres.
No dia 7 de abril, quando se celebra o Dia Mundial da Saúde, é comum pensarmos em hospitais, consultas, exames e medicamentos.
Mas a saúde começa muito antes disso, começa, silenciosamente, dentro de casa. Começa, muitas vezes, na cozinha.
Entre a correria do dia a dia, a cozinha tem sido reduzida a um espaço de passagem. Embalagens substituem panelas, e a promessa de praticidade parece resolver um problema antigo: a falta de tempo. Mas essa solução é, no mínimo, incompleta. Porque, no fundo, a pergunta permanece: quem ainda está sustentando, diariamente, a alimentação das famílias?
Dados globais são reveladores: as mulheres preparam, em média, o dobro das refeições caseiras em relação aos homens, uma disparidade enraizada em processos históricos de desvalorização do trabalho doméstico. Cozinhar não é apenas preparar alimentos.
É planejar, escolher, organizar, limpar. É antecipar necessidades, equilibrar o que há na despensa com o que falta no prato. É um trabalho contínuo, e, na maioria das vezes, invisível. Invisível porque não é remunerado, porque é esperado, porque é naturalizado.
E, sobretudo, porque tem gênero.
Mesmo com avanços importantes na inserção feminina no mercado de trabalho, a responsabilidade pelo preparo das refeições ainda recai majoritariamente sobre as mulheres. A indústria de ultraprocessados soube capitalizar esse fardo doméstico ao promover alimentos de conveniência, mas sem redistribuir a desigualdade de gênero. Eles até economizam tempo no fogão, mas não redistribuem o trabalho. Apenas transformam sua forma.
No lugar do preparo, entra a gestão: decidir o que comprar, o que oferecer, o que “dá tempo”. E, nesse processo, a alimentação vai se tornando mais rápida, mais padronizada, e, muitas vezes, menos saudável.
Não por falta de informação, mas por falta de condições.
Falar de saúde, portanto, é também falar de tempo. De quem tem tempo para cozinhar. De quem não tem. De quem precisa dar conta de tudo, trabalho, casa, filhos, e ainda garantir refeições adequadas.
Reverter o consumo de ultraprocessados exige que intervenções de saúde pública tratem a desigualdade de gênero como componente central da transformação alimentar, não como pauta secundária.
Cozinhar é um ato de cuidado. Sustenta o corpo, mas também vínculos, rotinas, memórias. Exemplos brasileiros, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar e as cozinhas solidárias, mostram que é possível reconhecer o cozinhar como trabalho qualificado e valorizado dentro da economia do cuidado.
Talvez o Dia Mundial da Saúde seja uma oportunidade de ampliar o olhar. De reconhecer que promover saúde não é apenas tratar doenças, mas criar condições para que o cuidado cotidiano seja possível, e compartilhado como responsabilidade de todos.
Caryna Eurich Mazur



