Geral
Apelidos, ah eu sei, você nunca teve algum, e nunca deu algum apelido para outros amigos ou amigas, não é mesmo? Não se zangue, é só uma brincadeira para quebrar o gelo. Mas na prática isto se torna muito sério quando os apelidos ou estigmas revelam características da nossa personalidade, não acha? É por isto que dei esse tema ao capítulo em questão, garoto problema, porque era exatamente este o meu estigma, o meu apelido, a minha realidade.
Compartilho com você leitor, não apenas aquilo que aprendi nas salas de leitura ou bibliotecas, na redundância das inúmeras reportagens que continham o assunto das relações familiares. Poderia (e farei no final deste) citar livros, autores, experiências alheias e tantos outros fatores, como base da argumentação desta mensagem. No entanto prefiro fazer, por assim dizer, uma abertura de coração, expondo a minha própria vida. Antes de pensar na experiência alheia ou basear-me em fatos observados na vida de terceiros, prefiro tratar a partir de uma experiência de vida que conheço bem: a minha.
Quero que você pai, você mãe, saiba que eu sei o que é um garoto problema, um adolescente problema, um aluno problema; não porque ouvi falar a respeito, mas porque eu mesmo fui um deles. Se você é um professor, diretor ou pessoa de autoridade escolar, certamente não gostaria de ter tido a minha presença em seu contexto estudantil nos meus piores anos da minha adolescência
Nascido em Belo Horizonte, capital mineira, em janeiro de 1965, recebi a bênção de estar em uma família especial, formada por um pai viajante, uma mãe professora e duas irmãs. As lembranças que consigo trazer à memória remontam a partir dos cinco anos de idade, nada antes disso. Muito cedo percebi que minha mãe, professora da rede pública estadual, iria fazer de tudo para minha vitória estudantil e profissional. Fazia as tarefas ao meu lado, estava presente no meu acompanhamento escolar levando-me à escola e, sobretudo sendo muito exigente comigo. A dona Manieta exigia um português bem escrito e falado, fazendo-me realizar cópias e redações sucessivas. Ela era muito presente na minha infância e adolescência.
Por outro lado, meu pai, o seu Alberto, era o que chamamos hoje de Consultor de Seguros, e era mesmo muito bom naquilo que fazia, tendo recebido muitos prêmios na sua atividade profissional. O problema é que suas muitas viagens e atividades profissionais fizeram-no distante de mim numa fase importante da minha vida. Lembro-me de épocas e tempos em que se ausentara por dois a três meses, e neste tempo a presença na minha vida era a da minha mãe.
Convivi pouco com a presença das minhas irmãs em casa. Vânia, a primeira, casaria antes de Sandra, a outra irmã que casaria um pouco depois. Fiquei sozinho com os meus pais por ser caçula da família. Mas foi através da minha mãe que recebi as primeiras influências que um garoto deveria receber de seu pai. Aptidões escolares, funcionais, esportivas, dentre outras se deram por influência das opções e com ela aprendi a ser atleticano, passei a nutrir predileção pela Rádio Itatiaia, a mais ouvida de Minas, como dizem. Ela me ensinou a gostar de grandes lojas, shoppings, lanchonetes, parques, cinemas e circos. Sou capaz de lembrar de quase todas as vezes em que saí com ela e também das poucas vezes que saí com meu pai. Eu já lhe disse que meu pai viajava muito, lembra-se? Pois bem, o que me lembro dele em minha infância diz respeito às vezes que ele chegava de viagem trazendo alguns presentes e salgados que mamãe e eu gostávamos.
Cercado por estas realidades familiares fui crescendo, me desenvolvendo bem como a expectativa dos meus pais em relação à minha performance escolar e de vida. Certo dia, minha mãe chegou a nossa casa com uma novidade: um concurso de admissão ao Colégio Militar de Belo Horizonte estava aberto. Não éramos militares e ninguém da nossa família tinha ligações com qualquer ambiente das forças armadas, no entanto minha mãe acreditou suficientemente em meu potencial para investir na possibilidade de uma prova na qual concorreria com outros civis e filhos de oficiais militares. Este concurso de admissão seria praticamente um vestibular juvenil, no qual somente os melhores colocados teriam direito às vagas disponíveis.
Terminei a quarta série fazendo um curso preparatório para o dito concurso no ano de 1974. Fiz o concurso e fui aprovado, fato que encheu minha família orgulho. Era a realização do sonho da minha mãe: “Nosso filho será um oficial militar”, pensava agora em todo o esforço despendido neste sentido. Mas o garoto prodígio tornar-se-ia um problema logo, logo.
Aonde começaria tudo isso? Os indícios iniciais estariam ligados às perguntas essenciais que todo adolescente tem a fazer a seus pais, mas que ficam sem coragem de ousar, ou suas respostas omissas por causa da distância relacional com os mesmos. No meu caso, foram as duas coisas, e a segunda a pior delas. Lembro-me de uma ocasião na qual estava na Escola Estadual Padre Lebret e uma professora de nome Miriam, lecionando sobre Ciências, falava sobre a diferença existente entre os corpos masculino e feminino. O diálogo e a conversa não se fariam muito aprofundados em questões como estas. Quando cheguei em casa falando da aula e fazendo perguntas, certamente fui remetido com todas as minhas dúvidas para a professora, pois, afinal de contas, o assunto nasceu lá e deveria lá ser solucionado.
No contexto de uma ausência dialogal formatou-se o garoto problema chamado Fernando. Continuo este bate-papo com você na próxima edição. (Texto extraído do meu segundo livro, “Meu Filho, meu filho … Onde está você”.)
*Pastor da Comunidade Batista Betel em Dois Vizinhos, palestrante, colunista e escritor.




