Sempre torci o nariz para estórias nas quais pouco consigo identificar ou me identificar— seja na forma narrativa, nos personagens ou nas situações. Prefiro romances do povo: escrita clara, sem códigos excessivos, protagonistas de carne e osso. A ficção também deve servir como fuga, é verdade — mas quando dialoga com o cotidiano, ganha ainda mais força. Nesse sentido, Itamar Vieira Júnior acerta em cheio com “Coração sem medo”.
Uma mãe em busca do filho levado pela polícia
Rita Preta é moradora de uma comunidade de Salvador. Mãe de três filhos adolescentes, de pais diferentes, é separada. Educa as crianças sozinhas, com o parco salário de caixa de supermercado. Para trabalhar, dispende horas no transporte coletivo.
No tempo vago, entre o emprego e o cuidado com os filhos, gosta de namorar. No relacionamento mais recente, se envolve com Jorge, um caminhoneiro casado, que promete a ela abandonar a outra família — promessa sempre adiada.
Diante do parco salário e da baixa qualidade de vida, a preocupação é maior em instruir os meninos para o que julga melhor e certo. A maior dificuldade é com Cid, o mais velho, de 16 anos. Prestes a conquistar a maioridade, vive em conflitos com a mãe. É após mais uma discussão — dessa vez por causa de um namoro, que para ela significaria mais desleixo com os estudos — que ele some de casa.
Começa então o drama de Rita Preta na busca de encontrar o filho.Nada se sabe. Na comunidade, o silêncio parece mais proteção do que ignorância. Ela vai até a casa da garota, suposta namorada, “ficante”, mas é mal recebida. Por ali o rapaz não esteve, conclui.
Uma fofoqueira do bairro comenta ter visto Cid sendo levado pela Polícia, num camburão. Daí o receio dos moradores em dar detalhes a Rita sobre o que sabiam a respeito — os comandantes do tráfico não gostavam da ideia de conflitos “desnecessários” com os militares.
Abandonando o trabalho no supermercado, a mãe percorre a escola de Cid, registra o desaparecimento na Polícia. Os dias passam. A peregrinação segue pelos hospitais. Procura na ala de indigentes. Se estremece e se alivia ao constatar que aquele jovem em coma após um atropelamento não é o filho. No Instituto Médico Legal, é conduzida até um corpo. As mãos foram decepadas. Não era Cid. O alívio vem misturado ao horror — e à consciência de que alguém, em algum lugar, vive a dor que poderia ser a sua.
O passar dos dias faz com que os comentários na comunidade se espalhem e os rumores sobre uma abordagem seguida de captura pela Polícia aumentem. Rita não encontra mais outra resposta para o sumiço do garoto.
Após procurar a televisão e ganhar visibilidade também nos jornais, é orientada a se esconder no interior do Estado. A repercussão rende ameaças. Já tinha a certeza de que o destino de Cid tinha a ver com a Polícia — embora não soubesse de nenhum envolvimento do filho com as “coisas erradas”. Era rebelde, mas nunca se envolveu com o crime, garante.
No caminho para o autoexílio, Rita Preta reencontra as origens. Vai parar na fazenda onde nasceu. Foi criada pela avó, Carmelita, enquanto a mãe migrou para a capital em busca da vida melhor, prometendo voltar para buscá-la — a ela e a outros dois filhos.
Mas uma fatalidade marca a vida de todos que ficaram no interior. Os gêmeos morrem afogados no rio. Rita consegue escapar, mas cresce com o sentimento de culpa por não ter conseguido cuidar bem dos irmãos mais novos. Era a responsável por eles e se sentia irresponsável.
Prevendo o fim miserável de seus dias, a avó providencia a mudança de Rita Preta para Salvador. Sozinha e pressionada por latifundiários a vender o quinhão de terra, Carmelita é a única entre os moradores a permanecer na região. Resiste às ofertas e, antevendo a própria morte, se vinga dos fazendeiros. As sacas de sal espalhadas impedirão que qualquer coisa brote daquela terra.
Na capital, Rita tem 12 anos quando chega para trabalhar em casa de família. Mora num quarto fétido nos confins da residência, sem janela. Come o que lhe permitem.
Crítica social mais evidente e trama urbana
Depois de conquistar a consagração mundial em 2021 com “Torto Arado” e vir num ritmo parecido em “Salvar o fogo”, brindou os leitores com o novo romance, publicado no final de 2025. Com “Coração sem medo”, o autor disse concluir o que definiu como a “Trilogia da Terra”. Os personagens são descendentes da família de Bibiana e Belonisia, de “Torto Arado”. A diferença é que, aqui, a verossimilhança é maior. A crítica social é mais evidente, principalmente pela atualidade do tema.
Mais urbano e imediato que seus antecessores, o romance amplia a crítica social sem perder a delicadeza humana. Uma história dura, mas necessária — daquelas que não apenas se leem. Rita Preta nos acompanha mesmo depois da última página.
Referências
- Coração sem medo (romance)
- Nº de páginas: 332
- Ano de publicação: 2025
- Editora: Todavia
- Valor: R$ 41




