
Está aí um filme herói, legitimamente brasileiro, pois não desiste nunca. Não era para ser rodado, já que ninguém queria patrocinar. Motivo: o nome. Nenhuma empresa quis ligar seu imaculado nome a algo tão… tão… mundano. Versão audiovisual de livro homônimo, só saiu do papel porque o pessoal — produtores, atores, roteirista e afins — fez uma vaquinha e filmou com sérias restrições orçamentárias. Deu certo, pois ganhou vários prêmios e teve um excelente público nos cinemas.
A falta de grana e tempo exigiu criatividade e as adaptações deram um charme especial à produção. Tudo, aliás, estava bem explicado nos extras do DVD. Agora, na era do streaming (GloboPlay) essas coisas se perderam ou migraram para o YouTube. Até o autor do livro participa, num papel nada pequeno.
As interações têm diálogos ótimos e inesperados. Por vezes nem palavras foram necessárias para se criar uma situação cômica. A ótima combinação de cenário, figurino e roteiro torna impossível definir quando e onde a história se passa, o que ajuda a prestarmos atenção à sina de Lourenço, muito bem interpretado por Selton Mello, um proprietário de loja de penhores atormentado por um ralo e uma bunda.
Insensível porque o ofício o fez assim e solitário por opção, Lourenço é um negociador de qualquer coisa, que consegue ser amado num instante e odiado no outro. Enquanto abusa de pessoas desesperadas, tenta superar frustrações e livrar-se do desagradável odor que vem do ralo de seu banheiro, ele busca algo que nem o dinheiro lhe permitiu comprar: uma parte especial da anatomia da garçonete.
Eu não assistiria “O cheiro do ralo” com o pai e a mãe, aquela tia adorável, ou aquela turma do sobrinho numa bela tarde de domingo. Mas, se você quiser ver algo diferente, com um pouco de sustância… aí está.






