Tampão de pirata na luta contra o bullying

Alunos da Escola Nossa Senhora do Sagrado Coração “enxergam” a beleza do diferente.

 

Alunos da Escola Nossa Senhora do Sagrado Coração “enxergam” a beleza do diferente, com tampão de pirata, numa atividade da professora Gisele. 

 

“Fui procurada pela mãe (Rosimar Soares) de uma aluna (Yasmim Soares Henrique) com recomendação médica para usar o tampão ocular. A pequena chorava e se recusava a usar o tampão com receio da reação dos colegas e o medo de sofrer bullying”, afirma Gisele Arendt, professora do 3º ano da Escola Municipal Nossa Senhora do Sagrado Coração.
Ela conta que também tem problemas de visão e sofreu muito com o uso de óculos grossos e, quando pequena, do tampão. “Não poderia ficar indiferente a essa situação. Pesquisei um pouco sobre a customização de tampões e desenvolvi uma atividade na sala que requereu a participação de toda a turma.”
Gisele aproveitou a situação para trabalhar a história de Heitor, o pirata de palavras; professora e alunos se transformaram em piratas buscando palavras novas para aumentar o vocabulário, potencializar a escrita e a produção de histórias. Desta forma, a aluna Yasmim Soares Henrique colocou o tampão brincando. “Entreguei três tampões coloridos feitos com EVA e ela fez mais um junto com os colegas. Fomos todos para o recreio de tampão nos olhos. Eu e ela com uma adaptação para os óculos. Fiquei emocionada com o encontro entre ela e a mãe no final da aula. A mãe encheu os olhos de lágrimas ao ver a filha feliz com os tampões coloridos e os coleguinhas todos iguais a ela”, diz Gisele. 
Rosimar Soares, mãe de Yasmim, aprovou: “Achei maravilhoso, porque eu não sabia o que eu iria fazer; a Yasmim não queria de jeito nenhum usar o tampão na escola. Agora ela está toda empolgada. Seria bom se todos os professores fossem assim como a professora Gisele, que se preocupou com o problema da minha filha.”

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Os alunos se transformaram em piratas, buscando palavras novas para aumentar o vocabulário,
potencializar a escrita e a produção de histórias. 

 

Em busca da aceitação
Como encerramento deste trabalho, teve a produção de texto, na última sexta-feira, com as palavras que eles coletaram, além de um caça ao tesouro. Gisele, que concluiu o mestrado em Educação pela Unioeste na semana passada, luta pela inclusão nas escolas. “Quando falamos em diversidade na sala de aula, estamos falando disso, inclusão, respeito, solidariedade; é compromisso com a formação humana.”

Os colegas do 3º ano Escola Municipal Nossa Senhora do Sagrado Coração
entraram na brincadeira a partir da história de Heitor, o pirata de palavras.

 

 

 

Crianças já têm amigos, elas precisam de pais

O bullying, como explica a psicóloga Maria Augusta Lage Gregório, é a tentativa de diminuir alguém diante do grupo. Ela destaca que, de forma geral, esta é uma geração na qual os pais, a escola e a sociedade não estão fazendo algo para que a criança entenda o que é inadequado. 

“É preciso educar para a vida, com exemplos. Isso é difícil, porque nossa cultura não teve parâmetros. Saímos de uma cultura repressora para uma cultura de permissividade. E todos ficamos perdidos nisso tudo porque estamos tendo que aprender no meio da batalha: Como agir sem parecer general ou careta? Como falar sem deixar de ser amigo camarada? Como dar limite com amor?”
Segundo Maria Augusta, os pais dessa geração foram reprimidos e não querem se parecer com seus pais, por isso ficam divididos entre ser repressor ou ser amiguinho. “Muitos pais se realizam ao ver seu filho fazendo tudo que sempre tiveram vontade de fazer. E ser o popular da escola é uma delas; acabam passando regras falhas, sem consistência de valor e respeito. E não conseguem o que mais precisam, que é ser pais.”

Valores reais, pessoas de bem.
As crianças já têm amigos e precisam de pais. A psicóloga enfatiza que a amizade entre pais e filhos é diferente e precisa ser assim, porque é com os pais e irmãos que a criança aprenderá a se relacionar, amar e, até mesmo, odiar com respeito. É com a família que se aprende os parâmetros bons e ruins.
“As crises da adolescência, com as dificuldades de relacionamento, aumentam as crises sociais (bullying). É necessário um trabalho conjunto a esse respeito. As crianças são diferentes umas das outras e por isso não existem regras. Então, a regra é começar a olhar de verdade para seu filho e perceber o que ele gosta, como que ele lida com as pessoas, como ele fala das pessoas, como são as brincadeirinhas com seus amigos.”
Quanto a tirar sarro, Maria Augusta observa que é próprio da idade, mas tirar sarro de forma sádica, desqualificando ou diminuindo, não é da idade e sim falha na noção de respeito e merece atenção especial. “Uma coisa é brincar, outra coisa é diminuir. Isso é maldade, não é brincadeira e eles precisam aprender essa diferença. A sociedade só vai melhorar quando ajudarmos nossas crianças valores reais. Só assim serão pessoas de bem.”

Yasmin e a professora Gisele, com colegas da turma, na qual o bullying passa longe. 

 

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