A luta de quem decide abandonar o vício
Mais de 2.500 pessoas já passaram pelo Ambulatório do Fumo de Francisco Beltrão, que se propõe a ajudar fumantes que desejam abandonar o vício. As histórias são surpreendentes e revelam desde a necessidade de fumar a absurda quantidade de cinco carteiras de cigarro ao dia até a associação da droga ao álcool e suas consequências sociais e emocionais.
Hoje, no Dia Mundial sem Tabaco — data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1987 —, um pequeno grupo de fumantes pode reacender uma esperança. São os participantes do tratamento que iniciou ontem, no posto de saúde do bairro Industrial. Eles terão mais três palestras até o final do próximo mês, mas receberão apoio por um ano de uma equipe formada por enfermeiros, médico e psicóloga.
Em 2012, o Ambulatório do Fumo — que já recebeu prêmio estadual — já atendeu 830 pessoas e conseguiu fazer com que 70% delas deixassem dedos, lábios e pulmão livres da fumaça. Um resultado graças ao trabalho que, vale frisar, atende às recomendações do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer.
Apesar dos bons números e de relatos bonitos de quem parou de fumar, o problema ainda escraviza muita gente. Em março deste ano, a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, classificou a indústria do tabaco de “inimigo cruel e diabólico”. E considerou que é dever dos governos e de toda a sociedade civil combater esse causador de doenças, morte e degradação do meio ambiente.
Cinco carteiras por dia
Simone Munhoz promete que vai tentar mais uma vez abandonar o cigarro. Ela já chegou a fumar cinco carteiras por dia. “É um absurdo, eu sei, mas quanto mais eu fumo, mais eu quero”, lamenta. Ela é fumante há 11 anos e procurou o ambulatório por indicação médica. “A ideia é interessante, mas eu acho que não consigo.”
Mesmo sem muitas expectativas, Simone reconhece que a abstinência é o grande sinal vermelho e que a faz “entrar em pânico”. “Eu consigo passar a manhã toda sem (fumar). Só fumo no intervalo do almoço e à noite. Mas quando chego em casa, o chimarrão e o cigarro são uma companhia”, conta a trabalhadora de serviços gerais numa escola.
Lenir Lopes da Silva, de 48 anos, fuma desde os 15. Como não pode fumar em horário de trabalho, não vê a hora de chegar em casa. “São cinco ou seis cigarros por vez, de manhã, de meio-dia e de noite. Uma vez fumava bem mais o dia todo. Agora ando sempre com um pletz na boca”, revela a vendedora.
Envergonhada por não se conter diante dos amigos, Lenir está decidida a deixar o cigarro de uma vez por todas. “Eu me sinto mal, por isso vim buscar ajuda. O meu marido não fuma mais, parou por conta própria. Foi parando aos poucos”, lembra-se.
“O fumante tem uma coisa que ataca os nervos e só passa se fumar. Eu, se estou triste, quero fumar pra me alegrar. E se estou feliz, quero fumar um cigarro. Quer ver tomando um chimarrão, uma cerveja. O chimarrão não é o mesmo sem um cigarro”, comenta Lenir. “Mas quando lembro que podia ter um carro zero quilômetro… Assim tenho um Pálio velho”, ri a vendedora, talvez para esconder o desgosto pelo prejuízo com o vício.
Para a enfermeira Jussara Pedroso, o cigarro é uma bengala. “Normalmente as pessoas não param por causa de um problema na família, no trabalho. E o cigarro acaba se tornando mais um obstáculo. Mas, assim como tudo na vida, o desafio para parar de fumar é diário. E eles relatam isso aqui.”
Um bom exemplo é o do seo Rosalino Conte, 59, que se viu obrigado a abandonar o fumo. “Eu fiquei violento, chegava em casa e brigava com a família. Procurei o médico e ele me deu um remédio. Me ajudou porque me deu nojo do cigarro e da bebida. Tava jogando bocha e tinha um cara fumando do lado, me deu ânsia”, conta.
No Ambulatório do Fumo, seo Rosalino quer se fortalecer: “Eu fumava uma carteira, tomava cachaça, conhaque, o que viesse. Agora já faz 15 dias que não bebo e não fumo”.
Fumaça cancerígena
Segundo o pneumologista Redimir Goya, médico que atende no Ambulatório do Fumo, o cigarro é a terceira causa de morte no mundo. “A fumaça do cigarro é cancerígena e tremendamente tóxica. Contém 300% ou mais de nicotina e monóxido de carbono e até 50 vezes mais substâncias cancerígenas do que a fumaça aspirada pelo fumante, após a passagem pelo filtro”, cita.
Os fumantes passivos têm 30% mais chances de desenvolver câncer de pulmão, doenças cardíacas, asma, arteriosclerose, aneurismas, tromboses, AVCs, infecções respiratórias e úlcera gastroduodenal. “A criança exposta à fumaça do cigarro tem mais risco de contrair pneumonias, bronquite aguda, bronquiolite, infecção do ouvido e crises de asma”, explica dr. Goya.
Entre as gestantes, a inalação da fumaça aumenta a incidência de abordo, lábio leporino, prematuridade, morte perinatal, placenta prévia e descolamento de placenta. E o pior: segundo o Inca, 2.700 pessoas morrem todos os anos, no Brasil, devido ao tabagismo passivo.
Serviço
O Ambulatório do Fumo funciona no posto de saúde do bairro Industrial e atende pelo telefone 3523-0361. A equipe de profissionais também realiza palestras em escolas e empresas.
Os impactos no meio ambiente
Os prejuízos à saúde são os mais evidentes, fáceis de serem identificados, mas o que não se pode esquecer é que o cigarro também faz mal ao meio ambiente. E isso se verifica em todas as etapas de produção. “No cultivo do tabaco, são utilizados agrotóxicos altamente agressivos ao ecossistema, o desmatamento, o trabalho adolescente e infantil e o manejo inadequado dos recursos naturais”, lembra Goya.
Para se construírem as estufas e obter-se a lenha para combustível, o desmatamento é grande. “Calcula-se que 5% do desaparecimento de florestas naturais se deve à produção do tabaco. A queima da lenha utilizada nos fornos e estufas, para a secagem do tabaco, provoca a emissão de inúmeros gases nocivos. Cada estufa queima cerca de 50 m² de madeira por safra.”
Para o dr. Goya, a política de recuperação florestal não repõe a “biodiversidade, a heterogeneidade, o habitat e os nichos ecológicos existentes nas matas nativas”. “Para cada 300 cigarros, uma árvore é queimada. Ou seja, um fumante com 20 cigarros por dia é responsável pela perda de uma árvore a cada 15 dias.”
Os filtros jogados fora
Os filtros de cigarros jogados foram levam cinco anos para se decompor. E quando são levados pela chuva para lagos e rios, podem prejudicar os peixes. Essas pontas de cigarro correspondem a 25% de todo o lixo coletado em ruas, além de serem responsáveis por 30% dos incêndios.
Paraná produz 17% do tabaco
No Brasil, o Rio Grande do Sul responde por 52,3% da produção de tabaco, seguido por Santa Catarina com 27,1% e o Paraná com 17,3%.
Grande parte é produzida pela agricultura familiar. Levantamento realizado na região Sul indica que 55% destas pessoas não utilizam nenhum equipamento de proteção e que 80% se desfazem dos resíduos de agrotóxicos de forma errada.
Segundo o médico Redimir Goya, o mesmo levantamento conclui que 48% destes trabalhadores sofrem de doenças relacionadas ao cultivo do tabaco. Na cidade de Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, já se comprovou a alta incidência de distúrbios psiquiátricos e, inclusive, de suicídios.






