Morremos quando não temos mais vontade de viver. Assim como nascemos várias vezes também. Nascemos quando casamos com a pessoa que amamos, quando beijamos, atingimos uma meta, uma amizade verdadeira, o filho que nasce, quando enfrentamos nossos medos…
Eleandro Vieira
Dizem que só se vive uma vez. Pode até ser verdade. Mas morrer, morremos mais. Penso nisso há alguns dias e não comentei com ninguém nem escrevi nada para ver se tirava isso da minha cabeça. Mas não tirei. Dizem que só se morre uma vez. Penso que morremos muitas vezes, mesmo respirando o ar que nos envolve, mesmo acordando todo dia para o trabalho, mesmo fazendo sexo uma vez ou outra na semana, mesmo tomando cerveja com pessoas queridas, mesmo que andando por aí embaixo do sol de 30 graus do verão sul brasileiro. Morremos quando perdemos um amigo. Morremos quando desistimos de um sonho. Morremos quando dizemos sim querendo dizer não. Morremos quando nos acostumamos com a vida que não queremos levar. Morremos quando temos o dever de falar e calamos por medo. Morremos quando não tentamos e a covardia toma conta de nós. Morremos quando perdemos um grande amor. Morremos quando não beijamos a luz do pôr do sol que sai lento esperando o contato das bocas. Morremos quando não temos mais vontade de viver. Assim como nascemos várias vezes também. Não só quando forçadamente saímos do conforto da barriga da mãe para respirar o ar deste mundo que não sabíamos o que nos guardava. Nascemos quando fazemos uma amizade verdadeira. Nascemos quando um filho desejado nasce. Nascemos quando nos apaixonamos. Nascemos quando casamos com a pessoa que amamos. Nascemos quando beijamos uma boca. Nascemos quando abraçamos alguém que não queremos mais soltar. Nascemos quando conquistamos uma meta, um sonho. Nascemos quando dizemos não, quando queremos e devemos dizer não. Nascemos quando enfrentamos nossos medos. Quando não temos medo. Mas estamos falando da morte. Difícil termos noção dela quando ainda não morremos. Mas quando se morre pela primeira vez ela dá as caras e é muito mais feia e cruel do que nos desenhos animados. Quando alguém morre fisicamente e não conseguimos segurar as lágrimas. Ou quando vamos para casa chorando porque não conseguimos enfrentar uma injustiça. Ou quando desistimos dos nossos ideais por um sistema que nos pressiona. Ela vem à tona. Mostra as caras e aí descobrimos que ela existe mesmo, além dos filmes de terror à meia-noite. Dizem que só se vive uma vez. Pode até ser verdade. Mas morrer, morremos mais. E a vida passa. E as mortes chegam. Até a morte definitiva, outras tantas imprimem sua tinta em nossas vidas. Ano passado eu morri duas vezes, e quase uma terceira. Poderia cantar Belchior em 2020: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!” Mas não tenho tanta certeza, e não gosto de tê-las, mas uma talvez faça sentido, por ora: as mortes fazem parte da vida – e elas são várias. Ano passado eu morri, mas este ano…?
Eleandro Vieira é de Marmeleiro





