Curado da Covid, Dr. Gilberto já voltou a atender

Não fumei, não bebi, nunca usei droga, não fui um adolescente que gostasse de boate, de festa, de passar madrugadas acordado, então, acredito que, em função desse passado, hoje, tenho uma certa reserva.

Dr. Gilberto Santos dos Santos, sexta-feira dia 19, quando ainda estava no quarto do Hospital Regional, preparando-se para receber alta, e concedeu esta entrevista.

Medicação não tem mais, o olfato e o paladar não foram afetados, somente o cansaço ainda marca o recente contágio com a Covid-19 pelo médico Gilberto Santos dos Santos, e ele já voltou a atender. 

Ontem de manhã, na Policlínica São Vicente de Paula, dr. Gilberto dizia que sua recuperação foi “espetacular”, embora ainda sinta um cansaço “impressionante”. Um dos motivos que o levaram a voltar ao trabalho foi ver “a casa cheia”: leitos de UTI 100% ocupados.

Ele é o médico intensivista chefe de quatro UTIs de hospitais da região: UTI geral da Policlínica  São Vicente de Paula, UTI Covid do Hospital Regional de Francisco Beltrão, UTI Covid do Instituto São Rafael de Chopinzinho e UTI do Hospital São Lucas de Pato Branco. Ele diz que o correto seria chefiar até três UTIs mas, “por uma questão de guerra”, assumiu quatro. 

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Dr. Gilberto está retornando sem total disposição física, mas muito sensibilizado com o que está acontecendo: “Eu faço parte de um seleto grupo qualificado muito solicitado (na pandemia), não dá pra ficar se escondendo, e como eu fui ajudado, mais razão tenho para ajudar as pessoas”.

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Dr. Gilberto, de 62 anos, é diabético tipo II e hipertenso, condição que ele mesmo admite como de alto risco para a Covid. Internado no Hospital Regional de Francisco Beltrão, na semana passada, enfrentou dois dias difíceis, com febre de até 40 graus. 

Pouco antes de receber alta, na sexta-feira, dia 19, ainda no quarto do Hospital Regional, ele concedeu entrevista ao Jornal de Beltrão, que foi publicada em partes na edição de sábado. Agora segue na íntegra.

Na pandemia, o senhor trabalhou direto?
Desde março até agora, na zona de frente da Covid, de quatro UTIs.

Em fevereiro veio a vacina e o senhor foi vacinado.
Sim, fiz a primeira dose lá no Hospital São Lucas em Pato Branco e, semana passada, fiz a segunda dose. Sexta-feira (12 de fevereiro) a segunda dose.

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O senhor sentiu sintomas?
Na sexta pra madrugada de sábado. No início, achei que era uma reação vacinal: tive muita dor no corpo e muita febre. Tinha feito a vacina a nem dez horas ainda, mas encarei como uma reação vacinal.

Tava de plantão lá na UTI, aí, pelo excesso de dor muscular e extremamente cansado, pedi pra um colega me substituir e fiquei deitado. Voltei a trabalhar no domingo; na segunda-feira tava trabalhando aqui na Policlínica; terça de manhã, fui pra casa; terça à tarde, eu estaria de plantão no Regional, aí vi que não tava bem, não tava legal, e digo: “não, tenho que ir lá assumir o plantão”.

Ia dizer que não tinha condições e vamos tentar achar um colega pra me substituir. Mas cheguei aqui com 40 de febre, muita dor no corpo e já variando um pouco. Aí, o pessoal aqui, prontamente, “não, daqui tu não sai mais, vai ficar aqui”. Aí já fomos fazer a tomografia.

A tomografia mostrou um comprometimento pulmonar de 100%, de vidro fosco e já fomos colher todos os exames e iniciei o tratamento. Nas primeiras 24, 48h me lembro muito pouco, porque a febre era muito alta, a dor era muito desconfortável, mas não precisei ir pro tubo; com a relação da VNI – ventilação não invasiva – a coisa foi melhorando, melhorando e, na manhã do terceiro dia de internamento na UTI, praticamente, sintoma respiratório não tinha mais. Continuava com desconforto, com dores no corpo, mas febre já não tinha mais e nem a parte ventilatória me incomodava mais tanto, não.

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Terceiro dia foi sexta-feira?
Não. Internei na terça-feira, então, terça e quarta foram os piores momentos da doença, a febre era muito alta, a dor era muito desconfortável e, em função das medicações e até da falta de oxigênio, eu não lembro muita coisa. Na quinta, então, a coisa começou a melhorar bastante: eu continuei fazendo a ventilação não invasiva, a febre já tinha desaparecido, passei uma noite excelente e, hoje, então, acordei sem a necessidade do oxigênio, acordei muito bem e todas as vezes que estive aqui fui tomar banho sozinho, sem precisar do auxílio do oxigênio, consegui ir ao banheiro tranquilo e fui me livrando aos poucos da dependência de oxigênio. E, hoje, desde que acordei, então, não precisei usar mais.

O senhor já tá se considerando curado?
Sim, dessa aí já passou.

Ao que o senhor atribui essa rápida recuperação, doutor?
Eu tava brincando com o pessoal ali… o passado da gente, né? Hoje, eu tô com 62 anos, nunca fumei, não bebo bebida alcoólica de forma exagerada – só socialmente, em casa, e muito pouco, um simples copo de cerveja pra mim é o suficiente pra me botar dormir um dia inteiro quase – então, por ter uma vida muito calma, muito tranquila, porque só fiz duas coisas na vida: estudei e trabalhei, não fiz outra coisa.

Então, por ter um passado muito tranquilo, hoje a gente tem garrafa vazia pra vender. Não fumei, não bebi, nunca usei droga, não fui um adolescente que gostasse de boate, de festa, de passar madrugadas acordado, então, acredito que, em função desse passado, hoje, tenho uma certa reserva. Hoje, tenho 62 anos, sou diabético tipo II e hipertenso, então, alto risco pra doença, mas, ao mesmo tempo, por uma série de outras razões a gente teve uma vida mais comportada, acho que esse foi o grande sucesso da coisa.

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O senhor acha que a vacina já tinha dado algum efeito?
Não. Eu acredito, assim, que eu já deveria estar contaminado entre a primeira e a segunda dose. Acho que foi uma mera coincidência, então, quando fiz a segunda dose, ter piorado, porque a imunidade que essa segunda dose vai me dar, vai levar em torno de dez a 15 dias pra começar o efeito dela. Então, não tem nada a ver uma coisa com a outra.

No início, a gente até atrasou um pouquinho a se dar conta do que estava acontecendo, por causa da famosa reação vacinal, é uma coisa que as pessoas tão tendo quando fazem a segunda dose; as pessoas têm dor de cabeça, diarreia, têm vômito, têm dores pelo corpo inteiro, mas em 24h isso passa, desaparece. Era o que eu achava também, sabe? Mas, no meu caso, a coisa era mais complicada.

A medicação que o senhor receitava pros outros, receitaram pro senhor? Ou foi diferente?
Não, não, não, não. Já o antigo ministro da saúde Adib Jatene – ele foi um grande cirurgião cardíaco que nós tivemos no Brasil –, uma vez ele operou o ministro da Educação, no mesmo hospital que ele continuava trabalhando, do mesmo jeito, na mesma sala, os mesmos atendentes ali e o mesmo material.

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Quando saíram, perguntaram: “Ah, mas o senhor usou algo diferente no ministro da Educação?” “Não! Assim como operei o varredor de rua, eu operei o ministro, porque a patologia é a mesma”.

Assim, ó, hoje sou o médico-chefe dessa UTI, então, conheço cada um dos colegas que entraram aqui, de uma certa forma, eles tiveram meu aval pra entrar aqui e a equipe que a gente montou aqui, a estratégia que a gente montou faz parte pra atender todo mundo, inclusive o chefe, inclusive o comandante. Eu fico muito contente, fui muito bem tratado, muito bem recebido, prontamente recebido.

Como eu digo: hoje, trabalho em quatro UTIs, se tem alguém que pudesse escolher um lugar aonde ficar, esse alguém sou eu, mas eu já estava aqui, tinha vindo pra trabalhar e até achei que não conseguiria internar tão rápido como internei.

Mas, assim, prontamente a direção se encarregou de fazer toda a papelada e eu fiquei num sistema público do qual eu sou chefe, do qual eu montei esse esquema, do qual o tratamento foi a gente que definiu como ia ser e fico contente que, pra mim, deu tudo certo, o atendimento foi excelente, muito bom.

Tenho sempre a comentar que o importante não é aonde você se trata e sim, como você se trata. O importante é isso. Grande parte dos colegas que estão comigo trabalham comigo na UTI do São Lucas em Pato Branco, trabalham comigo na UTI de Chopinzinho, trabalham comigo na Policlínica de Beltrão e eu trouxe eles pra cá.

Assim, essa gurizada aí, que eu me considero pai deles, sou o mais velho de todos eles aqui na casa, então, eles estão comigo nessas quatro UTIs, não teria razão pra ser diferente. Aqui fui muito bem acolhido, muito bem tratado; mostra que o esquema que a gente propõe pra população em geral vai ser pro mais humilde dos cidadãos lá fora, como pro chefe de serviço que sou eu. Como eu digo assim: “sou o comandante em chefe da tropa” e a tropa ficou, assim… estão contentes de ter cuidado do chefe.


O senhor volta pra casa quando?
Eu acabei de fazer a tomografia de controle; agora, tá na dependência dos colegas, da avaliação da tomografia e de me falarem se posso sair ou não. Clinicamente tô muito bem, obrigado: já não dependo mais de suporte de oxigênio, desde de manhã, já acordei sem ele e não precisei mais. Tamo esperando essa boa notícia de alguém assinar meu alvará de soltura. Assinando o alvará de soltura, eu vou pra casa, provavelmente vá de tornozeleira eletrônica, eles vão ficar me monitorando de longe (risos).

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O que o senhor diz pras demais pessoas? Tem gente que não dá muita importância pra isso.
Assim, sem querer criar pânico na sociedade: eu acho que cada um tem que retomar a sua vida e o que der de ser evitado. Não é aquela coisa horrorosa de “fique em casa”, isso é besteira; agora, não se aglomerar, entende? Você pode ir pra qualquer lugar do mundo, mantendo uma certa distância, mantendo uma certa parcialidade nos relacionamentos, evitando tumultos.

A coisa mais importante, hoje, é retornar à vida, retornar às atividades econômicas, mas tendo o cuidado de não fazer aglomerações. Ninguém quer mais que fique preso em casa, já mostrou que não deu certo; grande parte da população que a gente atendeu estava em casa.

O importante, hoje, é, assim que tiver o primeiro sintoma, procure o atendimento médico. Outra coisa que acho que foi muito legal pra mim foi que, entre ter os sintomas cardinais iniciais e começar o tratamento, foi algo em torno de 48 horas. Isso ajuda bastante.

Sempre lembrando, principalmente pros jovens, não fumarem, cuidarem com as bebidas alcoólicas, porque um dia a gente vai ficar de idade, vai ficar velho. Hoje, tenho visto pacientes até mais jovens do que eu – tô com 62 – pacientes de 58, extremamente grave, mas era alcoólatra, fumante, teve um vida desregrada, não se cuidou, ia pra balada todos os dias.

Um dia a vida vai cobrar esse preço. Isso a gente vê, hoje, as pessoas que conseguem, além do suporte clínico, resolver o problema, são pessoas que têm uma reserva pulmonar, uma reserva cardíaca melhor que outras.

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