Em 27 anos, Pangartte já transportou mais de mil casas de madeira

Este tipo de serviço ainda é muito comum na região e exige técnica e perícia ao volante.

Geralmente os trajetos são curtos, mas Pangartte já chegou a percorrer 80 km transportando uma casa.

A cena é comum pra quem mora nos arredores de Francisco Beltrão, mas ainda chama muita atenção: uma casa inteira, embarcada na carroceria de um caminhão, passando pela rua. Quem já presenciou uma situação dessas ou precisou desse tipo de serviço deve conhecer o motorista Livino Pangartte, responsável pela maioria dos transportes de casas da região. Já faz 27 anos que ele está nesta atividade.

Pangartte trabalhou como motorista de caminhão por muitos anos, puxando cargas menos inusitadas que as atuais. No início dos anos 90 precisou mudar a própria casa de lugar e teve a ideia de colocá-la sobre o caminhão (o mesmo D-60 que ainda utiliza). Transferiu a estrutura de 36 metros quadrados em poucas quadras, sem grandes problemas. A vizinhança viu e poucos dias depois um conhecido requisitou o serviço. “Eu não tinha nem ideia de trabalhar com isso, mas daí um vizinho me pediu pra mudar a casa dele e me ofereceu um pouco a mais do que iam cobrar dele pra desmanchar e reconstruir. Aí eu vi que esse negócio poderia dar dinheiro e ser uma profissão”, relembra.

A primeira empreitada foi um sucesso, mesmo tendo entrado de frente no terreno onde assentou a casa; teve que manobrar muito para poder sair. O transporte de casas de madeira não é uma ciência exata, não tem curso profissionalizante que capacite e nem livros ensinando o ofício. Pangartte costuma dizer que se aprende na prática e tendo vontade. Com o tempo, ele aperfeiçoou as técnicas, foi pegando a manha deste tipo de transporte. “A casa pode partir no meio na hora do transporte porque fica forçando o oitão, então eu sempre travo as tesouras pra fazer um reforço”, revela. 

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Na boleia, é preciso ter visão
Antes de mover qualquer casa do lugar é preciso limpar o terreno para que o imóvel possa sair sobre o caminhão. Inicialmente a estrutura é desconectada da fundação e nivelada, para que seja erguida de maneira uniforme. O levantamento utiliza macacos hidráulicos, cepos e caibros e ocorre de forma lenta, poucos centímetros por vez. Quando a base da casa atinge 1,30m do chão, o caminhão entra debaixo e a estrutura é carregada. O transporte não chega a ser a parte mais complexa de toda essa operação, mas exige perícia. “Se tiver uma casa de seis metros de largura e um espaço de seis metros e dez centímetros pra passar eu consigo”, conta Pangartte, que se orgulha de nunca ter provocado um acidente nestas quase três décadas de ofício.

Uma equipe auxilia na remoção de galhos, desviando fios e servindo de batedor, já que o caminhão se move lentamente. “Na boleia é preciso ter visão e não se distrair, porque tem poste, fios, carro estacionado, uma árvore que pode enroscar.” Se precisa passar por rodovia, ele pede escolta da Polícia Rodoviária — o que é bem comum, uma vez levou uma casa de Beltrão a Realeza, fez 80 km.  Quando chega no local desejado, é necessário manobrar para poder assentar a casa exatamente sobre a fundação já preparada, coisa de poucos centímetros de tolerância. Nestes 27 anos, Pangartte calcula que já tenha feito esse mesmo processo por cerca de 1.200 vezes. “Felizmente nunca fiquei sem serviço, tem casas que já mudei três vezes de lugar, e o pessoal procura porque sabe o estilo do meu serviço, devagar, mas bem feitinho”, diz. 

Melhor transportar do que desmanchar
O trabalho de preparação das casas para retirada é feito somente por ele e a esposa, Nelci. Por vezes, esse serviço se torna complexo. Quando a estrutura é muito grande, por exemplo: é preciso partir a casa ao meio e fazer duas viagens (e tem que deixar a emenda imperceptível depois de remontada), baixar o ponto do oitão se ultrapassar 4,40m e retirar as folhas de brasilite da lateral para não enroscar nos galhos. O preço do serviço varia de R$ 60 o metro quadrado para casas menores a R$ 80 nas estruturas que precisam ser separadas. Quando se coloca o custo e os benefícios na ponta do lápis é possível entender porque o transporte de casas ainda é bastante comum na região. “Se for desmanchar vai custar quase a mesma coisa e ainda se perde muito, uns 40% da madeira, que lasca ou estraga. Aqui eu dou a casa colocada no terreno e com garantia se houver qualquer dano”, justifica. Outra vantagem é que o transporte pode ser feito em poucos dias e com a mudança toda dentro, como já ocorreu diversas vezes. Apesar da idade, Pangartte e Nelci querem continuar lidando com esse tipo de transporte tão incomum. Demanda não falta, acreditam: “Uma vez a gente trazia as casas do interior pra cidade, agora a maioria é o contrário e ainda tem muita casa de madeira, boa, que pode continuar preservada em outro local em vez de ser desmanchada”. 

Nelci Gobatto e Livino Pangartte com a neta Marya Vitória: para retirar esta casa, no Alvorada, estrutura será partida ao meio e transportada em duas viagens.

 

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