Fique nu

Geral

Ser imperfeito é condição nossa. Por mais que corramos, por mais que queiramos, isso não vai mudar. Aceitar isso é um grande passo para uma vida mais humana. Deixar ser. Erros, acertos, dúvidas. Vida. Todos somos feitos de carne e osso, suamos, sangramos, choramos, gozamos, sentimos.

É difícil admitir que se sente. Sentir é ficar vulnerável. É segurar o choro no final de um filme para seu amigo não ver o quão “fraco” você é. Já fiz isso. Hoje choro. Já evitei falar de minha vida com medo de lágrimas descerem do meu rosto. Hoje falo para aquelas pessoas que tenho conexão e, se precisar chorar, choro.

Percebi que não sentir ou não querer sentir é ter medo. É preciso coragem para mostrar sua fragilidade. E todos somos frágeis em alguns momentos. Admitir isso é ter coragem. Coragem é ficar nu de seus medos e encarar com ousadia os pequenos fatos do dia.

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Meus maiores arrependimentos foram quando não tive coragem pra fazer as coisas. E coisas pequenas, talvez. Como o beijo que não pedi a menina que cheirava ameixa e sentou ao meu lado no ônibus depois de uma conversa de mais de duas horas. Nunca mais a vi.

Quando não quis bater um pênalti no final de um campeonato por medo de errar. Quem bateu, errou e perdemos. Eu perco até hoje. E tantas outras vezes. Coragem é lutar pelo que quer, fracassar e sentir o cansaço gostoso da derrota de cabeça erguida, mesmo que com lágrimas nos olhos. Nesse último ano eu perdi muito. E tenho certeza que todos perderam. Pequenas mortes do cotidiano. Mas continuar é importante.

Um amigo depois de muito tentar e fracassar realizou seu sonho aos trinta e pouco anos de idade. Durante muito tempo me questionei: como alguém pode ter o sonho de ser motorista de ônibus? E foi quando ouvi ele contar sua história a desconhecidos com os olhos brilhando como nunca tinha visto foi que tive a certeza, apesar de já desconfiar, de que cada um tem o seu e o do de ninguém é maior que o do outro. E esse é o milagre da vida. Lutar pelo que se quer.

A casa própria, ser escritor, dono de uma loja, motorista, mecânico, a viagem dos sonhos. Os sonhos alimentam a vida, não importa qual. Cada um tem o seu. Olho o céu azul nesse final de ano, gritos de pessoas ao longe, um homem capina seu lote ao som de um brega funk, idosas caminham na rua às quatro da tarde, cada um vivendo seu cotidiano. Mundos em conexão. Ninguém vive só. E ninguém vive vestindo os medos de não ser o que é a vida toda.

A vida é uma só. Ou, pelo menos, a vida aqui com seus sonhos e com as pessoas que te rodeiam, é única. Não existe ensaio. O tempo passa e o passado não existe. A eternidade está nas memórias e nem sempre elas são satisfatórias. Mas, às vezes sim. Os momentos que mais fui feliz, foi quando fui livre. Fiz o que quis sem medo do ridículo, da culpa, do julgamento, do que vão pensar.

A vida não permite ensaios, já dizia um grande cara tempos atrás. Seja quem você é. Retire a roupa que não se ajusta à alma. Fique nu.

*Eleandro Vieira é funcionário público em Marmeleiro.

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