A declaração é da enfermeira Cinthya Raquel Alba Rech.

No Paraná, há somente duas enfermeiras registradas com a especialização em cuidados paliativos no Conselho Regional de Enfermagem do Paraná (Coren/PR); Cinthya Raquel Alba Rech é uma delas. Cinthya é enfermeira paliativista, esposa do dr. Daniel e mãe da Letícia e da Maia; atualmente, é gerente geral do Ceonc Francisco Beltrão – Hospital do Câncer e instrutora da área da Saúde do Senac. Trata-se de um trabalho em conjunto na busca de melhorias no dia a dia do paciente e de sua família.
Por que há tão poucos enfermeiros paliativistas no Estado? Cinthya responde que, apesar do cuidado paliativo ter surgido oficialmente no Brasil no final da década de 1990, somente em 2018 o Ministério da Saúde, em sua Resolução nº 41, de 31 de outubro de 2018, normatizou a oferta dos cuidados paliativos como parte dos cuidados continuados integrados no âmbito do SUS. “É certo que possuímos muito mais enfermeiros realizando cuidados paliativos em todo Paraná, porém, nossa formação acadêmica é focar na vida, na cura, em salvar os pacientes. Dificilmente falamos sobre ‘perder’ pacientes, isso soa como uma derrota. É difícil enfrentar. Trabalhar com cuidado paliativo faz a gente ressignificar o conceito de morte. Nos faz ver que ‘perder’ um paciente não é uma derrota. Derrota seria não podermos garantir que o morrer não precisa ser acompanhado por sofrimento. Vencer é poder garantir uma boa morte a todas as pessoas.”Confira a entrevista.
JdeB – O que são cuidados paliativos?
Cinthya Raquel Alba Rech: Qualquer doença ameaçadora da vida, seja ela aguda ou crônica, com ou sem possibilidade de reversão ou tratamentos curativos, traz a necessidade de um olhar para um cuidado mais amplo e complexo, que demonstre o interesse pela totalidade da vida do paciente com respeito ao seu sofrimento e de seus familiares. Podemos definir cuidados paliativos como uma abordagem que busca a promoção da qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, através da avaliação precoce e controle de sintomas físicos, sociais, emocionais, espirituais desagradáveis em pacientes com doenças que ameaçam a continuidade da vida
Em geral, o paciente tem consciência de que seu estado de saúde é realmente crítico?
Em primeiro lugar precisamos entender a diferença entre o paciente paliativo e o paciente em terminalidade. Todos os pacientes em terminalidade são paliativos, porém, nem todos os pacientes paliativos se encontram em terminalidade. Qualquer paciente que apresente uma doença crônica sem possibilidade de cura pode ser caracterizado como um paciente paliativo, mesmo que ele não esteja em sua fase final de vida. E aí está o encanto do cuidado paliativo, poder acrescentar vida nos dias do paciente e não somente dias à sua vida. Quando o cuidado paliativo começa a ser realizado precocemente, ainda na fase que podemos buscar a modificação/cura da doença, é possível preparar o paciente sobre as situações que ele irá enfrentar e como ele poderá enfrentar, fazendo que sua fase de terminalidade seja tranquila e com o mínimo de desconforto possível.
Os cuidados paliativos são oferecidos nos hospitais ou em casa?
Os cuidados paliativos podem e devem ser oferecidos em qualquer lugar, em casa, no hospital, à beira da praia ou no topo do morro. Quando conseguimos integrar a família nestes cuidados, muitas vezes os pacientes podem passar grande parte do período de terminalidade junto aos seus entes queridos. E cá, entre nós, existe lugar mais confortável do que aquele em que se emana amor por todos os lados? Amor dos filhos, dos netos, bisnetos, cachorros, papagaios e periquitos.
Trata-se de um trabalho em conjunto, certo? Quais são os outros profissionais?
Isso mesmo, não se faz cuidado paliativo sozinho. Quando no hospital, até mesmo a equipe da recepção e zeladoria fazem dentro das suas atividades o cuidado paliativo. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, capelães, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais e todos os demais profissionais da saúde fazem parte do cuidado paliativo.
Quais são os princípios?
Os principais princípios que devem nortear o cuidado paliativo incluem:
• Iniciar o mais precocemente possível o acompanhamento em cuidados paliativos junto a tratamentos modificadores da doença;
• Reafirmar a vida e sua importância;
• Compreender a morte como um processo natural sem antecipá-la nem postergá-la;
• Promover avaliação, reavaliação e alívio impecável da dor e de outros sintomas geradores de desconfortos;
• Perceber o indivíduo em toda sua completude, incluindo aspectos psicossociais e espirituais no seu cuidado. Para isso é imprescindível uma equipe multidisciplinar;
• Oferecer o melhor suporte ao paciente focando na melhora da qualidade de vida e auxiliando o paciente a viver tão ativamente quanto possível até a sua morte;
• Compreender que os familiares e entes queridos são parte importante do processo, oferecendo-lhes amparo e suporte durante o processo de adoecimento e luto.







