Lucas Scheid mantém vivo o legado do pai, Jairo, ídolo do Corinthians e de Beltrão

Acidente há exatos 15 anos vitimou zagueiro campeão brasileiro pelo Timão, que como treinador colocou Beltrão na elite do Paraná por duas vezes.

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Lucas, filho de Jairo Scheid, com a camisa e a faixa utilizada na conquista do Brasileirão de 1990 com o Corinthians. Foto: Juliam Nazaré.

Juliam Nazaré – Primeiro grande ícone do esporte local, Jairo Scheid marcou uma época gloriosa do futebol de Francisco Beltrão. Jogando como volante, entrou para a história do Corinthians em 1990, com a conquista do primeiro título nacional do clube: o Brasileirão. A quarta-feira, 19, marca os 15 anos do falecimento do então ex-jogador, curiosamente, no mesmo dia em que o Timão busca mais uma conquista no País, na decisão da Copa do Brasil, contra o Flamengo.

Natural de São Carlos (SC), Jairo foi revelado pelo Grêmio, mas estreou como profissional no Criciúma. Em 1986, fez parte da equipe campeã catarinense. Três anos depois, chegou ao Parque São Jorge para brigar pela titularidade com Márcio Bittencourt, então nome da Seleção Brasileira.

Lucas Scheid, filho de Jairo, recorda de uma história divertida sobre a relação dos dois. 

“Certo dia no vestiário, o Márcio disse pro roupeiro: ‘pega a minha chuteira de trava alta, que hoje vai ter.’ Meu pai entendeu o ‘recado’ e disse: ‘o senhor trás da minha também. Já que vai ter, vai ter. Eles se arrebentaram no treino, nenhum baixou a bola pro outro e o técnico, acho que era o Cilinho, deixou rolar. Depois viraram melhores amigos e o Márcio tornou-se meu padrinho.”

Um desentendimento com o “craque” Neto, na visão de Lucas, culminou na transferência de Jairo para o União São João (SP). Ainda passou por Paysandu (PA) e Londrina. Quando encerrou a carreira, em 1994, Jairo, que tinha o pai morando em Dois Vizinhos, escolheu Francisco Beltrão para iniciar um novo projeto de vida. Fundou a Trans Scheid, empresa que, até 2015, foi responsável pelo transporte público no município.

Jairo Scheid fez história no Corinthians: 84 jogos, com 35 vitórias, 38 empates e 11 derrotas, além de sete gols marcados. Como treinador, foi campeão da Segundona do Paranaense com o Beltrão FC. Foto: Arquivo JdeB.

Em 2000, assumiu o Beltrão FC e conquistou a Seletiva do Campeonato Paranaense, disputada pelos dois piores da elite e quatro melhores da Segundona. Dois anos depois, foi campeão da Divisão de Acesso, num elenco que revelou Marcelo Régis.

Às 22h, de 18 de outubro de 2007, Jairo sofreu um acidente em Francisco Beltrão. Ele conduzia uma moto pela Rua Florianópolis, Bairro Alvorada. Conforme o relato da época de José Sálvio Oenning, amigo de Jairo que vinha logo em seguida em outra moto, Jairo foi atingido por um carro que saía de uma residência. Ele foi arremessado até bater num poste de luz. Morreu por volta das 3h do dia 19, aos 41 anos.

Filho único, quando Jairo morreu, Lucas tinha 13 anos e estava em São Paulo. Apesar de ter nascido no Sudoeste, desde 2002, quando os pais se separaram, ele morava com a mãe, Renata.

“Desde o divórcio, nos víamos umas duas vezes por ano. Só que em 2007, como eu me formaria no colégio em novembro e ele iria para a formatura, não nos vimos.”

Lucas, por pouco não enveredou pela mesma carreira do pai. Após três anos na base do Juventus, da Mooca, e Portuguesa, passou cinco temporadas no Corinthians. Mas quando estava próximo de se tornar profissional, uma lesão séria no joelho impediu o prosseguimento no futebol.

Neste mesmo ano, 2011, voltou a morar em Francisco Beltrão, para cuidar da Trans Scheid, empresa criada pelo pai e pelo avô, e estudar Administração, mas acabou se formando em Direito. Ele é vendedor do JdeB há dois anos e, em paralelo, atua nas equipes do Campeonato Varzeano. Como meia-atacante, defendeu, entre tantas: Gaúcha, Rio do Mato, Pinheiros, Industrial e, nesta edição, o Progresso.

“Dizem que tenho o jeito do meu pai de caminhar, chutar e trotar em campo.”

De lado, além de camisas, medalhas, troféus, quadros, recortes de jornais e outras relíquias da carreira do pai, Lucas guarda com carinho os conselhos. “Ele me ensinava com o olhar. Assim como ele, sou destro. E ele me explicava como bater com a esquerda: ‘puxa o marcador pra esquerda e corta pro mesmo lado. Puxa pra direita e corta pra direita. Na terceira finta, você faz o que quiser.’”

Nos 30 anos do Campeonato Brasileiro de 1990, Lucas, corinthiano fanático, recebeu uma placa em homenagem, endereçada ao pai. Para ele, uma prova de que o clube valoriza o que Jairo fez pelo Timão. Também como herança dos anos 1990, Lucas mantém amizade com Wilson Mano e Guinei, que fizeram parte do elenco na mesma época.

Marcelo Régis, ex-jogador: “Ele foi o meu primeiro treinador profissional. Eu, menino, magrinho, com 16 anos, sem experiência, cheio de sonhos. Muitas das pessoas desistem do futebol porque no início não encontram alguém que aposte nelas. Posso ter chegado aonde cheguei por ele ter confiado em mim. Me colocou tão novo, numa época em que isso não era comum. Apostou em mim numa Segunda Divisão e fiz seis gols naquele ano. Lembro dele falando do jeito que queria eu jogasse”. Na foto, jogo do Beltrão FC, em 2002: Jairo Scheid (em pé) e Marcelo, sentado, ao centro.

Claudio Melo, radialista: “Tínhamos uma convivência próxima quando ele foi treinador do Beltrão. Viajamos juntos. Era um técnico estilo Renato Gaúcho. Deixava os jogadores muito à vontade. Era carismático não só com os jogadores, porque a torcida e a imprensa gostavam muito do trabalho dele. Fez muito pelo futebol beltronense. Tenho muita saudade dele”.

Valdomiro Didoné, o “Dama”, ex-presidente do Francisco Beltrão FC: “Em 2001, o Beltrão caiu e o Jairo estava na cidade. Era uma lenda. Quando chegou no Francisco Beltrão FC o clube havia caído e o Jair se dispôs e conseguiu nos devolver à elite. Nos jogos, eu ficava na arquibancada e depois ele vinha me pedir se tinha algo para ser modificado. Eu, como joguei, era procurado, mas sempre dizia: ‘deixa a equipe como está. Time que está ganhando não se mexe’. Ele fez um trabalho maravilhoso”.

Adolfo Pegoraro, jornalista: “Trabalho no JdeB desde os meus 14 anos. Comecei em 2001, mas foi em 2003 que comecei a escrever meus primeiros textos, como estagiário em Jornalismo. E foi com o Jairo Scheid a minha primeira entrevista, no Arrudão. Meu pai me ajudou a formular algumas perguntas, que anotei no papel e levei junto com um gravador de fita cassete, que hoje está no nosso museu. Eu estava bem nervoso, e o Jairo percebeu. Mas como ele era uma pessoa fantástica, compreendeu o momento e até me ajudou. Mais tarde, ainda fiz muitas outras reportagens sobre ele. Sinto muito a falta do Jairo, que foi uma referência pro esporte de Francisco Beltrão”.

Wilson Cezário, ex-jogador: “Jairo foi um dos melhores treinadores que já trabalhei na minha carreira. Era estratégico e cheio de esquema para jogar contra os adversários.Saudade de um grande amigo, das conversas nos treinos e nas viagens. Muitos falam que a gente vai encontrar os bons amigos em outra vida. Se Deus permitir, que me dê o prazer de encontrar o Jairo”.

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