A jovem, de 14 anos, teve a perna esquerda amputada no final de 2019 em virtude de um tumor no fêmur.

A história da jovem duovizinhense Jennifer Serpa, 14 anos, tem emocionado pessoas em todo o Brasil. No final de 2019, depois de muitas dores no joelho, ela constatou um tumor no fêmur e precisou amputar a perna esquerda. Agora, depois de muitas sessões de fisioterapia e adaptações, iniciou-se uma campanha, pelas redes sociais, para arrecadar fundos e comprar uma prótese para que ela possa voltar a andar.
A prótese será feita em Foz do Iguaçu. “Eu já fui ver o tipo de prótese que ia precisar, já foi medido meu coto e, assim que eu fizer o depósito, vai levar outros 15 dias para a prótese ficar pronta e já vamos buscar. Tem um ano para ir adaptando, às vezes não encaixa direito, o joelho fica muito pesado, algum parafuso que precise arrumar, a espuma dela. Depois eu continuo fazendo fisioterapia e vida normal. Quando precisar, vamos para Foz e ela é arrumada”, explicou Jennifer.
A ação on-line é recente e teve grande adesão: o vídeo foi publicado na manhã de quarta-feira, 17, no Instagram da jovem (@jheny_658) e já contava com mais de 106 mil visualizações e a‘vaquinha’ (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/juntos-pela-jenni), alcançou a meta de R$ 50 mil no final da tarde de quinta-feira, 18. “Eu achei que ia demorar mais para a gente conseguir, fiquei muito feliz com a repercussão que o vídeo teve”, disse a jovem.
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A história
De maneira bem sóbria, Jennifer relata, num vídeo de pouco mais de 14 minutos, todos os passos do momento que detectou a doença até a amputação. As dores no joelho começaram a se intensificar no mês de setembro de 2019. “No começo, eu conseguia levar, mas com o passar dos dias, a dor ia aumentando. Eu era muito ativa, dançava, estava sempre para lá e para cá, tudo normal, eu não me importei muito com as dores e continuei levando a vida. No início de outubro, eu já não dormia mais de tanta dor e os remédios não faziam mais efeito. O período que eu mais sentia dor era a noite. Ela ia aumentando cada vez mais e eu percebi que, em cima do meu joelho, tinha um caroço e ele era duro, mas eu também não dei muita bola. No final de outubro eu já não aguentava mais”, relatou.
Primeiramente, a jovem procurou uma massagista imaginando que estava com um nervo inflamado. “Ela fez uma massagem, mandou eu fazer compressa e cuidar, não forçar. Na semana seguinte, eu tinha apresentação da dança e consegui cuidar por uma semana. Depois eu voltei com tudo, minha rotina normal como eu fazia antes. O problema é que quanto mais eu forçava, a dor ficava pior, a minha perna inchava muito e a noite se tornava um pesadelo porque era terrível dormir com dor. Eu apresentei o espetáculo de dança, foi bem complicado pela dor, já estava ficando difícil andar, fazer as atividades”, relata.
Nos primeiros atendimentos, os médicos também imaginavam outro tipo de lesão. “Eu fui consultar e o médico disse que era uma dor de bailarina, me deu uma pomada e eu continuei cuidando porque não forcei mais, já tinha acabado a apresentação e eu cuidei bastante. Antes disso ainda, eu tinha ido no massagista mais uma vez porque não conseguia andar de tanta dor. Não conseguia dobrar o joelho porque doía muito. No dia 6 de novembro, a gente bateu o carro, mas eu não me lembro de ter batido o joelho. Minha perna começou a inchar muito, qualquer forçada ela inchava muito e a dor era horrível”, completa.
O tempo passou e outros problemas começaram a aparecer. “Em menos de um mês, eu perdi 12 quilos mesmo tendo uma vida normal. Marcamos uma consulta para eu ver o que era, o que estava acontecendo e, no início, o médico suspeitou que era o menisco estourado, mas ele precisava de uma ressonância para ter certeza. O caroço duro ele achava que era água, que precisava retirar também o mais rápido possível. Quando recebi o resultado, cerca de 15 dias depois, não consegui marcar consulta com o médico que eu havia consultado, mas fomos numa clínica geral. A médica olhou o exame, me examinou e disse que não entendia muito, mas que, parecia ser um tumor no fêmur”, lembrou.
O diagnóstico assustou. “Meu Deus. Como assim? A médica já queria nos encaminhar para o Ceonc, mas antes de eu ir pra lá, eu precisava passar pelo ortopedista. Isso foi numa terça-feira, eu conversei com o ortopedista na quarta, ele examinou, pediu o que eu sentia e disse que realmente eu tinha um tumor no fêmur e precisava retirar o mais rápido possível. Ele assustou muito a gente, disse para ir para casa e cuidar muito, não forçar, porque a perna podia quebrar dormindo. Na sexta-feira, fui no Hospital do Câncer (Ceonc) em Beltrão. Chegamos lá e o médico olhou meu exame e disse que era um tumor no fêmur, ele já estava muito grande e era maligno. Ele já disse que a única solução era a amputação do membro. Na hora, meu mundo caiu. Eu chorei, questionei Deus, não aceitei, falei que não, que não ia tirar minha perna. Meu pai pediu se tinha outra solução, queria ouvir outras opiniões e o médico olhou pra ele e disse: olha, eu posso até encaminhar vocês para Curitiba, Cascavel, para onde vocês quiserem, mas eu só vejo perda de tempo, porque vocês podem perder ela dormindo. Nesse tempo de ir e voltar, ela pode quebrar esse osso e, se isso acontecer, a gente tem menos de duas horas para tentar salvar a vida dela”, contou.
‘Você prefere a perna ou a vida?’
Não foi fácil aceitar a amputação, mas uma pergunta do médico fez Jennifer pensar. “Eu continuava dizendo que eu não ia amputar e ele disse: você prefere a tua perna ou a tua vida? Foi ali que eu me dei conta que, realmente, que precisava escolher entre viver ou ter a perna. Na hora eu aceitei e pronto. Mesmo eu tendo uma esperança de que tivesse outra alternativa, eu entreguei para Deus e pedi para que Ele fizesse o melhor”, explicou.
Depois disso, outra dúvida cruel: o câncer havia se espalhado? Mais exames até constatar que a doença estava localizada somente na perna. “Fiz exames na sexta e na segunda voltamos ao Ceonc com o coração na mão, mas com muita fé. O médico disse que era um tumor localizado, mas eu ia precisar amputar o membro. Desde ali, a gente já considera um milagre porque o meu tumor estava com 10×6 milímetros, muito grande e a possibilidade de estar em outros membros era muito, muito grande. Teve muito a mão de Deus ali. Todas as vezes que eu questionei Ele, Ele me mostrou que estava ali fazendo o melhor pra mim. Eu não tive muito tempo para me adaptar ou me acostumar com a ideia, tentar entender. Quando eu me deparei já tinha feito, o pior já tinha passado, já tinha amputado e foi um momento muito difícil, de muitas inseguranças, de como as pessoas iam me enxergar dali em diante, como eu ia me enxergar, se eu ia poder andar, fazer minhas atividades como eu fazia antes”, explica.
As dificuldades, ajudaram a jovem a crescer. “Me tornei uma pessoa melhor, estou mais forte. Eu vi que mesmo passando por tudo aquilo, meu problema, perto de outras pessoas, era minúsculo e que a minha perna era um detalhe. Ao longo do tempo, muita gente perguntou como foi ficar sem o membro. Nos primeiros dias, eu não vou dizer que foi fácil, porque foi muito difícil, mas depois eu olhava para ela e só conseguia sentir gratidão por ter salvo minha vida. Mesmo passando por todos aqueles momentos difíceis, que eu desabei, que eu desacreditei, mesmo assim, eu estava ali e eu tinha minha vida inteira pela frente, meus sonhos, mais do que nunca, estavam esperando por mim e que eu não podia desistir”, conclui.





