Para dr. Badwan Jaber, de Francisco Beltrão, linhas de pesquisa ajudam a compreender melhor as alterações no organismo do obeso.

Foto: Alex Trombetta/JdeB
A obesidade já é considerada por autoridades no setor e profissionais médicos como uma epidemia global. E os índices são crescentes e cada vez mais preocupantes. A boa notícia é que, depois do incansável trabalho de pesquisa e investigação de um grupo de cientistas da Unicamp, de Campinas (SP), conseguiu identificar dois eventos que contribuem fortemente para o ganho de peso.
Um deles é a alteração no perfil de bactérias que compõem a flora intestinal. Estudos publicados entre 2005 e 2007 mostraram que pessoas obesas geralmente apresentam um conjunto de microrganismos que favorece a absorção dos nutrientes da dieta. Ou seja, uma maçã pode ser mais calórica para uma pessoa gorda do que para uma pessoa magra. Mas se isso é causa ou consequência do sobrepeso ainda não se sabia ao certo.
Outro evento importante é a morte de um grupo de neurônios existente em uma região do cérebro chamada hipotálamo. Conhecidas como neurônios POMC, essas células são sensores de nutrientes e têm a função de avisar para o corpo que está na hora de parar de comer e que já há energia disponível para gastar. Após a perda desses sensores, mostraram os estudos, os indivíduos passam a sentir cada vez mais necessidade de consumir alimentos ricos em gordura e açúcar.
“Começamos então a nos perguntar: o que vem antes? A mudança no padrão alimentar do paciente causada por um erro no sistema cerebral de controle da fome ou a alteração do microbioma intestinal? Nossos dados mais recentes sugerem que o hipotálamo é danificado muito antes de ocorrerem alterações no intestino”, contou Lício Augusto Velloso, coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Estudos tem sido destaque mundial
O médico gastroenterologista Badwan Jaber, da clínica ProGastro, de Francisco Beltrão, elogia o trabalho desenvolvido pela Unicamp. “A relação da obesidade com alterações neuroendócrinas e bioquímicas tem sido o foco de estudos em vários centros de pesquisa no mundo. O centro de pesquisas da obesidade da Unicamp tem sido destaque mundial. Neste sentido, seus trabalhos são apresentados nos maiores congressos internacionais do assunto e nas melhores revistas científicas”, comenta.
Segundo o médico, estas pesquisas buscam aprofundar os conhecimentos das disfunções bioquímicas que acontecem na obesidade e, assim, entender melhor o que acontece nestes pacientes, abrindo caminhos para novas modalidades de tratamento. “Muitas destas alterações bioquímicas já foram identificadas, porém ainda não se sabe ao certo se algumas destas altercares são causa ou consequências do problema. Muitos medicamentos para emagrecer foram criados com estes conhecimentos”, destaca dr. Badwan.
Como foi o experimento
O grupo realizou nos tecidos de camundongos submetidos à dieta rica em gordura saturada uma série de análises temporais – que ao todo durou quatro meses, tempo suficiente para o animal ficar obeso. Em vários momentos ao longo do período experimental, uma parte da colônia era sacrificada e tinha o cérebro e o intestino analisados pelos pesquisadores. “Começamos a detectar alterações hipotalâmicas logo no primeiro dia da dieta obesogênica. Já as alterações na microbiota intestinal demoraram entre duas e três semanas para aparecer. É uma diferença temporal relativamente grande – considerando que são camundongos”, explicou Velloso.
Em estudos anteriores, o grupo da Unicamp já havia detalhado como os danos aos neurônios POMC acontecem. As moléculas de gordura saturada ingeridas são absorvidas no intestino, caem na corrente sanguínea e chegam ao cérebro, junto com os demais nutrientes da dieta. No sistema nervoso central, uma célula de defesa conhecida como micróglia entende que aquele excesso de gordura é uma ameaça aos neurônios e começa a produzir moléculas inflamatórias como se estivesse combatendo um patógeno.
Os pesquisadores concluíram que os resultados são piores quando há consumo excessivo de gordura saturada. A principal fonte de gordura saturada da dieta humana são os alimentos de origem animal, como carnes gordurosas, manteiga e laticínios. Mas esse nutriente também está presente no óleo e derivados de coco e no óleo de dendê, assim como em diversos produtos industrializados, inclusive biscoitos, sorvetes, bolos e tortas.
Informações ajudam compreender o que acontece
Para dr. Badwan Jaber, de Francisco Beltrão, estas linhas de pesquisa ajudam a compreender melhor as alterações no organismo do obeso, abrindo outras fronteiras para seu tratamento. “Por exemplo, sabe-se que a flora intestinal, que são bactérias residentes nos intestinos e que ajudam em vários processos bioquímicos do corpo humano, é diferente do obeso do que na pessoa com peso normal. Baseado nisso, há uma linha de pesquisa sobre o transplante fecal, onde a flora intestinal do obeso é substituída por uma flora normal, com resultados promissores. Isto já é realidade em alguns centros de referência, inclusive aqui no Brasil, como no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo”, ressalta o médico. *Com informações da Agência Fapesp.






