Debate aconteceu durante uma reunião remota da Frente Parlamentar do Coronavírus.
Na manhã de ontem, uma reunião remota da Frente Parlamentar do Coronavírus, coordenada na Assembleia Legislativa do Paraná pelo deputado Michele Caputo (PSDB), promoveu o debate sobre o tratamento e prevenção à Covid-19 com apresentações de dois médicos com posições divergentes sobre o uso dos medicamentos disponíveis no momento em que ainda não há vacina para o vírus.
Com o auxílio da deputada Maria Victoria (PP), vice-coordenadora da Frente, Michele Caputo mediou as exposições de Dorival Ricci Cunha Júnior, cirurgião do Hospital Paraíso, no município de Paraíso do Norte, que defende o uso da cloroquina e hidroxicloroquina; e do infectologista Clóvis Arns da Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, contrário ao uso destes remédios. As palestras foram acompanhadas, de acordo com Michele Caputo, por mais de 20 parlamentares.
Para o primeiro secretário da Mesa Executiva, deputado Luiz Claudio Romanelli (PSB), as posições divergentes enriquecem o debate constante. “A decisão do tratamento está muito vinculada ao médico que atende o paciente”, afirmou. De acordo com ele, os médicos têm liberdade para o exercício de suas profissões, com os medicamentos disponíveis, tendo a maioria seguido as recomendações da Organização Mundial da Saúde. “É um debate que visa salvar as vidas das pessoas”, disse.
Romanelli destacou que o número de contágio no Paraná superou o previsto no início da pandemia, citando a prevenção, com o isolamento social, como as formas mais seguras de evitar o avanço do vírus sobre a população. “Enquanto não tivermos a vacina, precisamos nos acostumar com isso, mudando nossa realidade”, frisou.
O deputado Nelson Luersen (PDT) elogiou o debate e falou das orientações que devem ser transmitidas aos produtores rurais em suas tarefas diárias na lavoura e pecuária. Luersen é subcoordenador da Agricultura na Frente Parlamentar. O deputado Emerson Bacil (PSL) defendeu a escolha dos pacientes nos tratamentos que querem receber. Ele se disse contrário a qualquer proibição de que médicos utilizem tratamentos precoces com remédios. “Tenho certeza de que a maioria pode receber este tratamento”, explicou, ressaltando que os cardíacos e que com outras comorbidades devem ter este quadro observado.
A reunião foi transmitida ao vivo pela TV Assembleia e redes sociais do Legislativo, onde estão disponíveis para exibição.
Favorável: “O diagnóstico precoce aumenta muito a chance de cura”
Dorival Ricci Júnior, representando um grupo de 257 médicos e administradores paranaenses e cerca de 3.500 médicos do País inteiro que defendem a prática do tratamento precoce, relatou como se dá o contágio do vírus e como ele age no organismo, os sintomas e diagnóstico, além dos índices de mortalidade em cada uma das fases da doença.
Ele explicou que 81% dos infectados não têm sintomas em sua fase aguda; 14% têm sintomas moderados e precisam ser internados; e 5% deles evoluem para a fase grave, se não receberem o tratamento adequado. “O diagnóstico precoce aumenta muito a chance de cura”, declarou, com base em um estudo da universidade norte-americana de Harvard. Sobre este argumento, o médico falou de tratamentos “off-label” que podem ser usados com o consentimento do paciente.
Dorival Ricci Júnior afirmou que tudo depende do tempo em que as medicações são ministradas em cada fase da doença, de acordo com a replicação viral apresentada no organismo. “Quanto mais vírus houver, mais difícil conter seu avanço”, explicou. Segundo ele, a hidroxicloroquina, a cloroquina, a ivermectina e a azitromicina impedem o avanço do vírus neste aspecto, ativando o sistema imunológico para a produção das defesas corretas. “A fase 2-A, pulmonar, deve ser tratada ambulatorialmente, porque é nela que se dão os inícios de inflamações, como as tromboses pulmonares.”
“A cloroquina e a hidroxicloroquina não são indicadas na fase em que não há replicação viral”, frisou. Segundo ele, que está em contato com doentes em seu trabalho diário, o uso da cloroquina como forma de prevenção à doença é correto. “Eu e meus filhos tomamos semanalmente e não fomos infectados.” Explicou ainda que a droga está tendo uso disseminado entre os profissionais que estão nos hospitais em contato direto com doentes, além de casas de repouso para evitar seu avanço sobre os grupos de risco.
Dorival Ricci Júnior salientou que o medicamento não blinda o organismo, mas pode criar uma barreira de proteção que diminui em até 60% a possibilidade de infecção. De acordo com ele, os municípios brasileiros que adotaram o uso profilático dos medicamentos apresentaram números proporcionalmente muito inferiores aos que entraram em colapso em seus sistemas hospitalares, ainda segundo ele, por não terem tomado os tratamentos como regra.
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Contrário: “Ninguém do mundo desenvolvido recomenda a ivermectina na fase inicial”
Em contraponto, o infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia, Clóvis Arns, enfatizou a necessidade das pesquisas de segurança e eficácia para todos medicamentos usados contra qualquer doença. “No momento, temos apenas dois remédios aprovados para a Covid: a dexametasona e o Remdesivir, que não tem no Brasil e é caro. O tratamento nos EUA custa cerca de US$ 4 mil.”
De acordo com ele, a hidroxicloroquina não tem eficácia comprovada por nenhum estudo mundial. “Na quarta, 8, saiu mais um artigo pela Revista New England, tida como referência médica, que comprova que o medicamento é inócuo, com o exemplo do uso de hidroxicloroquina e placebos em estudos randomizados tendo a mesma porcentagem de contágio após contato com pessoas infectadas”, explicou sobre os indivíduos que ingeriram a cloroquina e os que tomaram cápsulas sem ela.
Clóvis Arns comparou o uso da cloroquina com a pílula do câncer e alertou que a disseminação da ideia de que ela cura é “desespero”. “Há a analogia de que estamos em uma guerra, mas não podemos matar nossos soldados”, exemplificou. Sobre a ivermectina, Arns explicou que o remédio para verminose teve estudos clínicos que comprovam que é ineficaz para o combate à Covid-19. De acordo com ele, a dose para o coronavírus deveria ser de 100 a mil vezes maior do que a usada para verminoses. “Ninguém do mundo desenvolvido recomenda a ivermectina na fase inicial”, afirmou.
O médico citou as dificuldades dos estados e municípios com a falta de remédios e aparelhos de oximetria, o que para ele deve ser o foco nas pautas dos debates. “Como cidadão paranaense, eu ficaria muito triste em ver qualquer dinheiro público, como foi o caso de Itajaí que gastou R$ 4,5 milhões para a compra de ivermectina no lugar de equipamento de proteção individual”, exemplificou. Ele reforçou que o isolamento social é ainda o único meio de evitar a disseminação da doença.
Arns propôs que a Frente Parlamentar de Combate ao Coronavírus e o Instituto Brasileiro de Infectologia trabalhem juntos para somar informações no atendimento às demandas.





