São João
Abro a cortina e vejo, através da vidraça fechada, porque o vento que entra pela fresta é bem frio, no quintal do vizinho, uma laranjeira velha florida. São flores miúdas, brancas e atraentes.
Estamos ainda no inverno, na primavera então será magistral.
Há quem veja a rica beleza da natureza só longe de casa. Eu não; ando caminhando pelas ruas, parques, estradas olhando sempre para os lados, para o alto e para o chão. Procuro ver além do que os meus olhos olham, naturalmente. E vejo tanta beleza, inclusive sobre a minha mesa.
Vejo também na claridade do dia e/ou na escuridão da noite. No pleonasmo proposital.
No nascer ou no pôr do sol; no nascer ou no pôr da lua. Nas pessoas que não conheço ou não reconheço nas ruas com máscaras por causa da pandemia. Mesmo assim cumprimento-as. Na vida minha e na sua. Na mulher bem vestida aqui ou seminua lá na praia.
A vida é maravilhosa desde o tempo de criança, lá no jardim com a mãe cuidando da rosa perfumada, até próximo do fim, sozinho, olhando pela janela a florada na laranjeira do vizinho.
É preciso olhar e ver a beleza que há na natureza, o amor que há na flor, a maravilha de se ter uma família… Enfim, bela e inodora, pra mim que carrego uma sequela: Um acidente deixou-me sem olfato; não sinto mais o cheiro.
A visão compensa a dor no coração.
Garçom, por favor, um suco de laranja sem açúcar. Doce basta a vida.







