Se já éramos globalizados no século 19, agora somos praticamente uma grande família dividindo um pequeno planeta. O que China, Irã, Rússia ou Estados Unidos fazem no café da manhã interfere em nosso jantar.
Não há guerra para nós. Ao menos não bélica, ainda. Geograficamente, o Brasil está a uma distância muito confortável dos principais palcos de conflitos recentes.
Aqui, no centro do Sudoeste paranaense, estamos a 11 mil quilômetros do Oriente Médio, 12 mil da fronteira ucraniana com a Rússia, e mais de 13 mil do estreito de Ormuz. Mesmo assim, nossos líderes já falam em estar preparados para os futuros conflitos.
Em Pato Branco, durante a inauguração de uma grande indústria agrícola no mês passado – com um investimento próximo a um bilhão e capacidade de processar até 3 mil toneladas de soja por dia –, eu não pude deixar de notar que os discursos falavam muito sobre o necessário crescimento interno do Paraná e a capacidade de não depender de outros países. Muitos deles alertavam sobre o impacto no diesel causado pelo agravamento das tensões em Ormuz.
É visível que muitos já estão pensando em formas de criar mais independência, não apenas no petróleo, mas na tecnologia, agricultura e defesa. Foi um desabafo sobre a incerteza do porvir. Há cem anos, um conflito regional no Oriente Médio ou no Leste Europeu sequer apareceria em nossos noticiários.
Hoje, por outro lado, reflete diretamente em nós. Se já éramos um mundo globalizado no século 19, agora somos praticamente uma grande família dividindo um pequeno planeta. O que China, Irã, Rússia ou Estados Unidos fazem no café da manhã interfere em nosso jantar. A guerra pode ser distante, mas o dinheiro é imediato.
Talvez comecemos a ver mudanças no cenário do Paraná, e de diversas outras partes da América Latina, desenvolvendo maneiras de nos proteger das instabilidades provocadas por poucos homens de poder.
Mas isso causa outro problema de ordem geopolítica. Também há pouco mais de cem anos, o protecionismo exacerbado na Europa foi um dos responsáveis pela Grande Guerra. Alguns historiadores, como o britânico Marc-William Palen, já sinalizam a semelhança entre o cenário da Primeira Guerra e o momento atual.
O Brexit, que foi a saída do Reino Unido da União Europeia em 2020, e até mesmo as taxas aplicadas por Donald Trump em diversos países do mundo no ano passado, têm a capacidade de transformar amigos em inimigos.
É um paradoxo. Não criar medidas para nos proteger pode nos deixar cada vez mais dependentes das potências mundiais que dominam a matéria-prima e a tecnologia; nos proteger pode causar inimizades e acelerar o conflito.
Certo é que investimentos como essa indústria em Pato Branco são importantes para a nossa região e para o nosso país. Não apenas como capacidade econômica atual, mas como ferramenta de descentralização futura.
Políticos e empresários que entendam o tabuleiro da geopolítica são necessários para assegurar nossa sobrevivência econômica.
O mundo globalizado nos trouxe benefícios e tecnologias quase incontáveis, mas não sem efeitos colaterais. Não é a primeira vez que eu escrevo sobre guerra a você, caro leitor, e possivelmente não será a última.
A cada dia que passa, a cada tensão que aumenta em diferentes partes do mundo, eu sinto que, inevitavelmente, estamos caminhando rumo a um conflito, lamentavelmente sem volta.
E se o conflito é inevitável como se desenha, então que ao menos nossa economia e meios de sustento não sejam pegos desprevenidos.



