Há judeus que sequer nasceram em Israel e mesmo assim são perseguidos. A Rússia está em guerra, e eu não vejo russos sendo atacados em outras partes do mundo
Escrevi, lá em 2023, poucos dias após os ataques do Hamas a Israel, sobre uma crescente onda de antissemitismo. Passados quase três anos, o cenário não apenas persiste, como se agrava em vários países, inclusive no Brasil. Semana passada, um bar na Lapa, no Rio de Janeiro, exibiu uma placa em inglês com os dizeres: cidadãos americanos e israelenses não são bem-vindos.
Outro comerciante, também no Rio, disse que estava “cansado de judeus” e que não os atenderia mais. Durante o carnaval em Belo Horizonte, alguns turistas israelenses foram hostilizados por serem de Israel.
Poderiam ser pessoas que nada têm a ver com a guerra, inclusive que se opõem ao próprio Netanyahu.
Ainda assim, ser de Israel foi suficiente para que um brasileiro iniciasse uma sequência de insultos, chamando-os de genocidas e até ameaçando agredi-los. Uma reação completamente irracional.
Em Itacaré, no litoral baiano, um grupo protestou contra o turismo israelense. Alguns veículos de imprensa afirmaram que a manifestação era motivada por baderna causada pelos turistas, e não pela nacionalidade em si, mas não foi o que pareceu.
Em resposta, moradores da cidade também se reuniram para prestar apoio aos israelenses e criticar a manifestação. Eles acusaram os manifestantes de agir contra a vontade dos munícipes e afirmaram que muitos nem sequer eram da cidade.
E neste cenário que se inflama dia após dia, a deputada federal Tabata Amaral, do Partido Socialista Brasileiro — quero enfatizar isso —, é autora do projeto de lei 1424/2026, que propõe bater de frente com o antissemitismo no Brasil, equiparando-o ao crime de racismo.
E esse é um projeto acertado, o antissemitismo deve ser combatido. Tabata passou a ser atacada, principalmente dentro de sua ala ideológica.
Em outras partes do mundo, israelenses — e judeus — têm sido alvo de ataques que nada têm relação com o Estado de Israel. São atacados em sua cultura, seu credo, seus costumes e vestimentas. Sinagogas foram vilipendiadas nos Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Holanda e Rússia e no Brasil.
Há um aumento consistente na propaganda antijudaica nas redes sociais, inclusive com o uso de caricaturas racistas semelhantes às utilizadas pelos nazistas.
Mais de 40 países na Ásia, Oceania, Oriente Médio, Europa e América registraram aumento significativo de casos de antissemitismo desde 2023. Em muitos deles, o antissionismo tem servido de disfarce para o preconceito.
Eu quero tentar ser o mais didático possível e mostrar que ataques ao povo israelense, como vêm acontecendo de forma sistemática, são abissalmente diferentes de se opor a Benjamin Netanyahu e à postura militar e política de Israel.
E me parece que as pessoas perderam a capacidade de enxergar o quão crítico isso é.
Qualquer tentativa de justificar que os israelenses sofrem essa perseguição por causa da guerra é descabida, pois há judeus que sequer nasceram em Israel e mesmo assim são perseguidos.
A Rússia está em guerra e comete crimes de guerra, e eu não vejo russos sendo atacados em outras partes do mundo por terem nacionalidade russa.
Você pode e deve apoiar a paz na Palestina. Você é livre para criticar as ações do governo de Israel e de Netanyahu, assim como muitos israelenses também fazem.
Mas, quando os ataques passam a ser direcionados a um povo específico, que possui uma única faixa territorial neste planeta, fica cristalino que a questão deixou de ser sobre uma Palestina livre.



