Uma Iniciativa do Rotary Club de Francisco Beltrão, através do projeto de subsídio global da Fundação Rotária do Rotary International, pretende preservar a principal bacia hidrográfica do município, garantindo que o rio responsável pelo abastecimento dos mais de 100 mil beltronenses continue assegurando qualidade de vida, saúde e evitando crises hídricas para as futuras gerações.

O Rotary Club de Francisco Beltrão pretende recuperar mil nascentes na região, com o objetivo de garantir, a longo prazo, segurança hídrica para o município. O projeto, idealizado pelo rotariano Névio Urio e viabilizado por meio de parcerias com a Fundação Rotária local e internacional, a Prefeitura Municipal e outros parceiros – como a Itaipu –, já alcançou 375 nascentes protegidas até o fim de 2024.
A proposta surgiu dentro das sete áreas de enfoque do Rotary Internacional, sendo o meio ambiente uma delas. A preocupação com a escassez hídrica motivou a criação do projeto.
“Beltrão cresceu e, com isso, o risco de faltar água em períodos de estiagem aumentou. Já houve épocas em que a cidade precisou de carro-pipa”, relembra Névio.
Durante uma visita à Secretaria do Meio Ambiente, em Curitiba, ele conversou com o então secretário Antônio Bonetti, também rotariano. Foi ali que surgiu a ideia de desenvolver um projeto que, além de recuperar nascentes, ajudasse a reter água nas cabeceiras dos rios. O sistema adotado foi o “tubo Caxambu”, uma tecnologia que permite que a água infiltre lentamente no solo, alimentando o lençol freático por mais tempo.
Inicialmente, o projeto previa a recuperação de 300 nascentes, mas, com a adaptação do método e a criação de uma pequena fábrica para produção dos tubos, o número foi ampliado para mil. A parceria com um clube da Índia e a aprovação junto à Fundação Rotária garantiram o aporte inicial de 150 mil dólares, dos quais 125 mil foram destinados ao clube de Beltrão.
A importância da recuperação das nascentes para o Rio Marrecas
Segundo Névio, o método de recuperação é simples e tecnicamente acessível. A implantação é feita com apoio da prefeitura, que fornece um técnico e um veículo, e por voluntários do Rotary. A nascente é limpa, protegida com pedras e cimento, e o tubo é instalado para controlar o fluxo da água. Todo o processo é georreferenciado e registrado.
O envolvimento dos proprietários é essencial. Muitos colaboram com o transporte de materiais ou com a preparação do local. Até o momento, cerca de 110 propriedades receberam as melhorias, com uma média de quatro a cinco nascentes por área. Algumas propriedades tiveram mais de 15 nascentes recuperadas. A maior parte dos locais atendidos está na região da Linha Água Vermelha, Linha Formiga, Lajeado Grande e Santa Bárbara.
Preservação das nascentes na visão dos moradores
Morador da comunidade Água Vermelha, o agricultor Adelino Menegatti, de 71 anos, sempre viveu na região e acompanha de perto a nascente que brota em sua propriedade — mesmo nos períodos de estiagem, ela nunca secou completamente. Dono do Recanto Renascer, onde uma parte larga e volumosa do Rio Marrecas atravessa suas terras, ele vê a resistência da natureza. Para ele, a preservação das nascentes é essencial para garantir água limpa hoje e no futuro, mantendo o Marrecas como um rio forte e vivo.
O agricultor e produtor leiteiro Benhur Garbozza, residente da Linha Formiga, lembra que antes da intervenção a água usada para os animais era suja, mas agora, com a nascente protegida, a água verte cristalina da nascente para o rio. O projeto, para ele, é essencial na manutenção do abastecimento e da vida no campo.
O também rotariano Antônio César Soares, engenheiro agrônomo, professor do curso da Unisep e secretário do Meio Ambiente de Francisco Beltrão, explica que o trabalho atua diretamente na preservação do Rio Marrecas, principal manancial de abastecimento de Francisco Beltrão. “É um trabalho essencial para a perenidade da água. Estamos recuperando justamente o ponto de afloramento do lençol freático, onde se inicia o curso hídrico. A água utilizada no sistema de captação urbana tem origem nessas nascentes espalhadas pela bacia e sub-bacias do rio.”
Técnica aplicada e reconhecimento do projeto
A técnica consiste em proteger o ponto onde a água brota do solo. “A gente limpa a nascente, retira a matéria orgânica acumulada, acomoda um tubo para a drenagem e impermeabiliza com lona plástica, tudo isso coberto por pedra basáltica – muitas delas retiradas do material do túnel de contenção – e terra. No entorno, é feito o plantio de vegetação e a conservação do solo, com curvas de nível e cobertura vegetal de inverno e verão.”
Ao chegar no local das nascentes, todo o entorno fica protegido por um grande volume de vegetação, o que ajuda a manter a nascente viva. A água flui límpida e volumosa pela tubulação instalada, e é diretamente conduzida até o Rio Marrecas, seguindo em direção a Beltrão.
Segundo Antônio, esse modelo foi adotado em Beltrão a partir de uma técnica desenvolvida pela Epagri, de Santa Catarina. Desde então, passou por adaptações e melhorias – algumas delas sugeridas pelo próprio Névio Urio – e hoje é considerado referência não apenas estadual, mas também nacional e internacional.
“Esse projeto já foi apresentado nos cinco continentes, em eventos do Rotary. É simples, mas exige dedicação. Acredito que poderia ser política pública em muitos municípios. É preciso integrar todas as ações para garantir não só a quantidade, mas também a qualidade da água. São mais de 100 mil habitantes em Beltrão que dependem desse rio. Precisamos pensar no futuro desde agora”, diz o rotariano.
Além da manutenção das nascentes, Névio também afirma que o projeto tem como objetivo o plantio de 13 mil mudas de árvores em áreas onde há essa necessidade. Até o momento, cerca de mil mudas já foram plantadas. As mudas utilizadas são fornecidas pelo viveiro municipal. A vegetação em torno das nascentes protege o solo contra a erosão, melhora a infiltração e ajuda a manter a qualidade e a temperatura dos cursos d’água.






