
Por Jônatas Araújo – Recentemente, em blogs e vídeos no Youtube, ressurgiu o debate envolto de utopia: Ratanabá, uma suposta cidade com dimensões semelhantes à cidade de São Paulo, submersa na Amazônia brasileira, e uma conspiração mundial para tentar escondê-la.
A hipótese – absurda, é claro – foi levantada por um instituto de pesquisa intitulado como Associação Dakila Pesquisas. Um de seus fundadores, Urandir Fernandes de Oliveira, é o mesmo quem repercutiu a Estória do ET Bilú em meados de 2011, além de já ter financiado pesquisas para comprovar que a terra era plana.
Ratanabá, de acordo com este instituto, seria uma cidade ancestral que existiu na Floresta Amazônica brasileira há cerca de 450 milhões de anos. Mais precisamente, no Estado do Mato Grosso, entre Amazonas e Pará. Nesta cidade, como qualquer lenda decente de El Dourado ou Atlântida, haveria riquezas o suficiente para sanar os problemas da humanidade, além de tecnologias à frente do nosso tempo. Por isto, segundo tais “cientistas”, o interesse de países externos e líderes mundiais em tornar a Amazônia inacessível.
É necessário pontuar que a Amazônia é uma floresta densa que se espalha pelo Brasil, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Devido a sua vastidão, ainda hoje há grandes descobertas arqueológicas sendo feitas. Cientistas alemães, de fato, descobriram recentemente um conglomerado de pirâmides na Amazônia boliviana através de mapeamento a laser. A descoberta se deu através de dados; o estudo foi publicado na revista ‘Nature’.
Por mais óbvio que possa parecer, toda ciência parte, primeiro, de uma profunda análise de dados. Os descobridores de Huayna Picchu – popularmente conhecida como Machu Picchu – não inventaram seu nome em 1911. Os Incas já chamavam o local assim muito antes. Com origem na língua Quíchua, uma antiga classe de línguas indígenas da América do Sul, significa ‘Jovem Montanha’.
Ratanabá, por outro lado, é um nome que, segundo Rafael Hungria, pesquisador do instituto Dakila, foi dado por eles mesmos, sem muitos critérios. Deriva de um suposto idioma antigo, chamado Irdin, o suposto primeiro idioma da terra trazido pela suposta civilização dos Murils. No entanto, não há nenhum dado científico ou etimológico que corrobore para a existência deste povo ou desta língua. Muito pelo contrário, blogs na internet afirmam que a língua Irdin deriva de anjos ou alguma espécie de misticismo cósmico. Onde está a ciência nisto?
Assim como qualquer outra falsa informação, afirmações sem provas alardeiam “uma revelação grande por vir”, mas que nunca vêm. É um misto de lendas e mitos cujo compromisso nunca é com a ciência, a arqueologia ou a verdade. O que assusta é ver a quantidade de pessoas sendo induzidas sem ao menos questionar.
Ainda há muita arqueologia séria a ser feita na Amazônia. Possivelmente, muitos vestígios de civilizações pré-colombianas escondidos entre a densa floresta. Mas esta descoberta não será “Ratanabá”, e certamente não virá de um instituto que mistura ufologia, misticismo e achismos ao mesmo tempo em que renega a ciência metodológica.








